Chanel Primavera/Verão 2027: os movimentos de Matthieu Blazy

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No segundo Ready-to-Wear para a Chanel, Matthieu Blazy fez um senhor desfile e veio ainda mais seguro de sua nova direção para a casa.

Matthieu Blazy apresentou a coleção primevera/verão 27 sob forte expectativa e não decepcionou em nada. Transformou os códigos mais reconhecíveis da casa em roupas mais leves, móveis, sensuais e contemporâneas, apresentando uma coleção tecnicamente sofisticada e visualmente exuberante.

Vimos tweed, tailleur, transparências, alfaiataria, lingerie, tutus, bordados e referências ao arquivo usados não para reconstruir o passado, mas provando quantas possibilidades ainda existem dentro da própria Chanel.

Chanel está voando. E não é apenas por causa dos pássaros

Matthieu Blazy está há apenas um ano à frente da Chanel e já conseguiu chegar a um ponto particularmente interessante: ele não precisa mais provar que consegue fazer uma Chanel diferente.

O desfile apresentado no Grand Palais, em Paris, reuniu 83 looks e trabalhou justamente com essa ideia de continuidade em movimento. O passado de Gabrielle Chanel aparece o tempo inteiro, mas raramente como reprodução literal.

A lingerie, o corset, a alfaiataria masculina, o tailleur, o tweed, as saias de cintura baixa, o vestido de noite, a sapatilha bicolor e a bolsa 2.55 estão ali. Só que cada um desses elementos passa por algum tipo de deslocamento.

A coleção Chanel Verão 27

O primeiro look ajuda a entender todo o desfile: uma pequena peça branca, transparente, delicada, quase uma combinação, deixa a lingerie aparente. No busto, aparecem linhas que lembram a estrutura de um corset e uma aplicação de penas em preto e branco. Na mão, a modelo carrega uma 2.55 original de Gabrielle Chanel, retirada do acervo da Maison.

Não é uma abertura aleatória. A imagem remete à própria história de Gabrielle Chanel e ao universo da lingerie, além da relação da fundadora com a libertação do corpo feminino das estruturas rígidas da moda do início do século XX. A lingerie, que tradicionalmente ficaria escondida sob a roupa, aparece como ponto de partida.

E isso ajuda a compreender uma das ideias mais interessantes da coleção: mostrar a construção da roupa em vez de esconder completamente sua construção. A partir desses primeiros looks, entram os conjuntos de jaqueta e saia e tailleur. Da intimidade da mulher que se veste de si para si, chegam os looks para o externo, o mundo.

Um show de referências de semiótica Chanel e identidade Blazy. A Chanel foi mais uma das casas que trouxe peças que pareciam cortadas e deixadas sem acabamento, uma das propostas declaradas da coleção. A Chanel descreve a construção como uma passagem da construção para a desconstrução, usando referências da alfaiataria masculina formal e transformando-as em gilets de bordas cruas, calças e conjuntos de saia lápis. Ou seja, não é simplesmente um acabamento negligenciado.

O que tradicionalmente seria uma peça masculina formal, perfeitamente acabada, passa a ser desmontado e reapresentado no corpo feminino. A borda crua deixa de ser um defeito a ser escondido e passa a fazer parte da linguagem da peça. Prada também propôs isso.

Existe uma espécie de revelação da oficina, do artesanal. Quando Chanel deixa fios aparentes, franjas, bordas cruas ou uma estrutura que parece incompleta, a roupa passa a contar um pouco de como foi feita. O acabamento deixa de ser apenas uma etapa invisível da construção e vira elemento visual.

E isso é muito interessante em uma marca como Chanel, cuja imagem está tão associada à precisão do tailleur, à perfeição do tweed, ao acabamento e ao trabalho dos ateliês. Blazy não está abandonando essa tradição, mas mostrando que até a imperfeição controlada pode fazer parte dela.

Principais códigos estéticos apresentados

O tailleur Chanel, novamente em transformação

O tailleur continua sendo uma das grandes estruturas da coleção, mas aparece muito menos rígido.

Há jaquetas cropped, conjuntos de saia, versões mais alongadas, proporções masculinas, peças usadas diretamente sobre a pele e combinações em que o tradicional conjunto de tweed perde a aparência de uniforme.

A cintura deslocada

A cintura baixa aparece repetidamente. A referência passa principalmente pelo vocabulário da década de 1920, especialmente pela silhueta de cintura rebaixada associada ao período do Jazz Age, embora Blazy misture essa referência com elementos dos anos 1930 e outras décadas do arquivo da Chanel.

Mas aqui Blazy não reproduz só uma cintura dos anos 20. Ele desloca a proporção dentro de roupas atuais. A cintura aparece mais baixa, às vezes marcada por cintos, às vezes sugerida pela construção da saia ou do conjunto, criando uma silhueta que parece histórica à primeira vista, mas não funciona como fantasia de época.

A mistura entre masculino e feminino

Esse foi outro eixo importante que permeou todo o desfile, já que a alfaiataria masculina aparece desconstruída em coletes, calças e conjuntos de saia lápis. Ao mesmo tempo, vestidos inspirados nos anos 1930 recebem paetês, bordados e construções enviesadas, mas são tratados com uma leveza que permite imaginar essas peças no guarda-roupa contemporâneo.

Blazy trabalha constantemente nessa tensão: um look pode ter a estrutura de uma roupa masculina e, ao mesmo tempo, mostrar o corpo. Uma peça delicada pode ganhar uma construção de alfaiataria. O tailleur pode ser usado quase como uma camiseta. O vestido de noite pode parecer leve.

Transparência

A transparência aparece desde o primeiro look e continua ao longo da coleção em saias transparentes, conjuntos de saia e jaqueta com aplicações sobre tecidos translúcidos e camadas de seda que criam volumes quase flutuantes.

A Chanel também trabalhou diferentes pesos de seda transparente para produzir um efeito semelhante ao movimento das nuvens. O corpo aparece, a construção aparece e a roupa parece menos fechada sobre si mesma.

A bailarina e o tutu

Uma das imagens mais bonitas da coleção está justamente na aproximação entre Chanel e balé e nessa hora o coração da ex-bailarina e coreógrafa aqui, bateu bem forte.

Os vestidos de tule com estruturas de corset remetem à estética da Belle Époque e aos tutus românticos, do Ballet Clássico, reinterpretados dentro de uma coleção que já vinha trabalhando a ideia de leveza e movimento.

O tutu também funciona como contraponto ao masculino. De um lado, o colete cru e a alfaiataria. Do outro, o tule, o corpo, a delicadeza e o movimento.

É uma coleção cheia dessas conversas.

Tweed: talvez a maior novidade esteja dentro do próprio tecido

Se existe uma novidade técnica que merece ser destacada, é o smocked tweed, ou tweed trabalhado com técnica de smocking.

A Chanel tradicionalmente trabalha com um tweed estruturado, encorpado, que ajuda a construir a própria arquitetura do tailleur. Nesta coleção, o smocked tweed não é apenas um tweed com uma técnica de franzido aplicada sobre ele. A Chanel descreve a inovação como um novo tweed com elasticidade, maleabilidade e mobilidade, criado para funcionar quase como uma peça de performance.

A inovação foi descrita pela própria organização da Semana de Moda de Paris como parte do desenvolvimento têxtil dos ateliês da Maison, justamente para levar a ideia de liberdade para dentro da matéria.

Principais materiais

O tweed permanece absolutamente central, mas aparece em versões mais leves, transparentes, desfiadas, trabalhadas e agora também com essa nova construção elástica.

Também aparecem:

  • sedas transparentes e sobrepostas
  • tecidos fluidos usados para criar volumes inspirados em nuvens
  • tule em construções de bailarina
  • malhas trabalhadas
  • bordados e aplicações
  • paetês
  • pedrarias e elementos de acabamento
  • tecidos com efeito translúcido
  • alfaiataria masculina desconstruída
  • tweeds com bordas cruas e aplicações metálicas

Destaco especialmente os tweeds com estampa de tigre em vermelho e branco, os conjuntos transparentes bordados e as barras desfiadas acompanhadas por detalhes metálicos. Riqueza imensa de informação de superfície.

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As cores também mudaram a percepção da Chanel

Embora o preto e o branco continuem presentes, a coleção trabalha com uma cartela muito mais expansiva.

Vermelhos, rosas, azuis, cremes, tons claros, combinações contrastantes e estampas mais fortes entram em cena.

O vermelho e branco aparece, por exemplo, em um tweed com estampa de tigre.

Vimos também combinações gráficas como no conjunto com colarinho em azul e laranja, além de uma sequência de sedas que muda visualmente conforme a referência passa da manhã para o fim do dia e a noite.

Essa cor tem uma função importante na atual Chanel de Blazy. Ela tira a Maison daquele lugar em que Chanel precisa ser imediatamente entendida como preto, branco, bege e tweed. É como se a identidade continuasse lá, mas a paleta deixou de ser uma prisão.

E os pássaros?

Os pássaros que mostro no vídeo abaixo eram andorinhas e andorinhões, e aparecem como símbolo de liberdade. Blazy contou que a inspiração veio também dos pássaros migratórios que observa na região da Calábria, onde passa parte do tempo. Para ele, a trajetória dessas aves se relacionava à própria trajetória de Gabrielle Chanel, especialmente à ideia de liberdade.

Por isso eles não ficaram restritos ao cenário. Aves aparecem em botões, joias e bordados. O teto do Grand Palais recebeu a instalação de pássaros iluminados. E até os acessórios entram nessa conversa, com uma nova minaudière em formato de gaiola.

Ao final do desfile, os pássaros estão fora dela, uma maneira bastante direta de transformar a ideia de liberdade em objeto e existe uma coerência bonita entre esse símbolo e aquilo que acontece na roupa.

E, entre tweeds que se movimentam, coletes que revelam a construção, transparências, tutus, cintura baixa, bordados, alfaiataria, lingerie e pássaros voando sobre o Grand Palais, a Chanel de Blazy encontrou talvez a sua melhor imagem para esta nova fase: uma marca profundamente consciente de sua história, mas finalmente disposta a deixá-la se mover.

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Cris Cardoso
Cris Cardoso é jornalista, comunicadora, estrategista de negócios e marcas pessoais e educadora. À frente do CrisCardoso.com, plataforma editorial criada em 2010, desenvolve análises e conteúdos sobre moda, beleza, comportamento, consumo e cultura, conectando tendências de consumo, contexto de mercado e comportamento de consumo, pela ótica da semiótica e da comunicação. É fundadora e diretora-executiva do ecossistema Ponto de Performance, empresa de educação e curadoria de conteúdo que já atendeu mais de 2 mil empreendedores no Brasil, em Portugal e no Canadá. Em sua trajetória, foi consultora de negócios e mídias digitais para empreendedores no Sebrae Brasil e docente-convidada do Senac São Paulo, com atuação em Negócios e Mídias Digitais, UX Experience e Criação de E-commerce. Também trabalhou com empresas de tecnologia e treinou executivos para se comunicarem com suas audiências no ambiente digital. Atua no ambiente digital desde 2010 e segue à frente da direção executiva e da apresentação de suas multiplataformas de conteúdo e canais no YouTube, além de idealizar e apresentar podcasts. Sua experiência reúne jornalismo, comunicação, estratégia e negócios, com atuação tanto na produção editorial quanto no desenvolvimento de marcas, conteúdos e projetos digitais.

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