Na terceira coleção de Pierpaolo Piccioli para a Balenciaga, a maison aparece mais comercial, mas não mais simples. Jeans, camisas, bolsas e peças utilitárias ganham construção, textura e detalhes de couture em uma coleção que aproxima o luxo da vida real sem abrir mão do rigor do corte.
Uma outra Balenciaga
Há uma diferença perceptível entre esta Balenciaga e aquela que vimos no desfile anterior de Pierpaolo Piccioli e não notei essa mudança apenas nas roupas. Ela está na temperatura da coleção toda.
A Balenciaga aparece agora menos interessada no choque imediato e mais interessada em construir desejo.
Há mais espaço para roupas que conseguimos imaginar no guarda-roupa, mas o que mais me encantou nessa coleção é que em momento algum isso significa uma coleção simplificada. Pelo contrário! É justamente no modo como uma camisa, uma calça, um jeans ou uma jaqueta são construídos que a sofisticação aparece.
É uma Balenciaga mais comercial? Definitivamente, sim. Mas uma Balenciaga comercial que não abre mão da complexidade, da surpresa do detalhe. A-m-e-i tudo!
Parece que Pierpaolo tem como questão central levar a excelência da couture para roupas que precisam funcionar na vida real. A resposta apresentada na primavera-verão 2027 passa pelo corte, pela matéria e pela funcionalidade.
O coral como ponto de partida
Não houve cenário megalomaníaco. O salão estava nu, branco, propositalmente. Luzes claríssimas (que alivio!). No centro da passarela central (foram 3 em paralelas), estava Les Coraux de la Liberté, uma grande escultura têxtil da artista francesa Aude Franjou.
O trabalho, feito em linho enrolado, formava uma estrutura ramificada que serviu como imagem para a coleção. O coral também se relaciona à ideia de organismo coletivo e interdependência que Piccioli associou ao projeto.
É uma metáfora que faz sentido para a coleção porque estamos diante de uma Balenciaga que parece estar construindo seu novo sistema aos poucos.
Piccioli chegou à maison com uma linguagem própria muito consolidada depois de décadas na Valentino. Agora precisa fazer essa linguagem conversar com uma casa cuja história passa por Cristóbal Balenciaga, pela couture e, mais recentemente, pelo período extremamente marcado pela cultura de Demna.
Sem dúvida, um dos grandes desafios de Piccioli é encontrar seu lugar entre o legado couture monumental de Cristóbal e a linguagem street e satírica associada a Demna. Nesta coleção, ele parece finalmente mais confortável nesse espaço.
A couture saiu do salão e entrou no guarda-roupa
Pierpaolo deixou bastante clara a intenção desta coleção. A ideia era levar a abordagem da couture para as roupas do cotidiano, fazendo com que técnicas e princípios de construção da alta-costura contaminassem peças ordinárias do guarda-roupa. Conseguiu, brilhantemente.
A própria Balenciaga descreve a coleção como uma investigação da identidade couture da casa, traduzida para uma arquitetura mais leve e para peças cotidianas. A marca também chama atenção para a ideia de roupas ajustadas ao corpo por fitas, volumes que se transformam e uma relação mais dinâmica entre corpo e tecido. Parece-me uma proposta particularmente adequada para a Balenciaga porque a história da maison sempre esteve profundamente ligada à construção da roupa.
E aqui está meu ponto: não se trata de pegar uma camiseta e simplesmente colocar algum acabamento sofisticado nela. O exercício é fazer com que a construção transforme aquilo que reconhecemos sobre uma peça cotidiana, com o poder de carregar uma lógica de atelier sem que a peça perca sua função.
Essa transferência dos códigos da couture para o vestuário cotidiano foi o principal movimento da coleção.
O corte continua sendo o filé mignon
A roupa parece acessível à primeira vista, mas começa a revelar suas intenções quando observamos a construção.
Pierpaolo trouxe o peplum em camisas e jaquetas, recuperando uma ideia de cintura construída que remete à história da Balenciaga.
As golas funnel acrescentam uma verticalidade mais arquitetônica.
Há volumes arredondados em algumas calças, próximos da lógica balloon ou barrel com pitadas de funcional-esportivo, enquanto outras peças trabalham com volumes mais fluidos.
A própria Balenciaga identifica entre as formas da coleção as silhuetas balloon, drape e cocoon.
Essa recuperação de vocabulários históricos é importante porque Piccioli não parece interessado em reproduzir Cristóbal Balenciaga literalmente. Ele utiliza alguns dos princípios do designer, especialmente a relação entre corpo, volume e tecido, para construir uma roupa contemporânea.
Balenciaga foi uma das marcas que recorreu ao DNA como referência histórica, mas o usou na construção, não em uma fantasia de arquivo.
Funcionalidade como parte da beleza
Um dos aspectos que mais chamam atenção nessa coleção é justamente a quantidade de elementos funcionais incorporados ao desenho. Cordões, botões, bolsos, ajustes, volumes e sobreposições não aparecem apenas como informação utilitária. Eles ajudam a construir a roupa.
Durante muito tempo, o utilitário na moda apareceu associado a uma estética específica, quase como um código visual pronto. Aqui, a função é incorporada à arquitetura da peça. A Balenciaga fala em uma roupa que pode se ajustar e mudar, enquanto elementos originalmente decorativos passam a exercer função.
Foi a proposta do desfile com a joalheria, por exemplo, que pode ser transposta para sustentar volumes junto ao corpo.
Isso cria uma relação bastante contemporânea com o vestir. A roupa não precisa ser uma estrutura rígida que o corpo simplesmente ocupa. Ela pode acompanhar o movimento, ser ajustada, transformada e reorganizada.
Leveza
Um dos vestidos finais, em rosa claro, assume a aparência de uma camiseta alongada, mas ganha uma extensão que se comporta como uma cauda. Em outro momento, um vestido longo revela jeans e sandálias quando a modelo levanta a parte frontal.
Essa lógica do formal e do cotidiano se misturarem até em uma peça de noite foi notada pela maioria dos especialistas. É uma ideia simples, mas bastante eficiente porque carrega a mensagem de Pierpaolo em questionar o que acontece quando aplicamos à camiseta a inteligência construtiva da couture.
Outro elemento que muda completamente a percepção da coleção é a pesquisa de materiais. A Balenciaga desenvolveu para a temporada um techno taffeta ultraleve e trabalhou também com cashmere duplo, kid mohair, popeline e diferentes tipos de denim. A maison afirma que conjuntos inteiros podem pesar menos de um quilo.
Isso ajuda a explicar uma característica que aparece visualmente no desfile: a roupa parece menos pesada, vimos vestidos fluidos que ganhavam o movimento conforme as modelos caminhavam. Vimos isso até na fita!
Essa leveza também aparece nos sapatos e nas bolsas. A Le City é trabalhada em couros mais macios, enquanto a Rodeo recebe uma construção em nappa ultraleve. Os sapatos seguem uma lógica mais maleável e desestruturada.
Textura é parte importante da coleção
Se a primeira leitura pode sugerir uma Balenciaga mais comercial, basta observar as superfícies para perceber que não estamos diante de uma coleção básica.
Há texturas, superfícies trabalhadas, rendas, efeitos de penas e aplicações que acrescentam movimento às peças. E as franjas…
As franjas aparecem em diferentes escalas e construções, enquanto as superfícies mais elaboradas fazem contraponto às roupas de aparência cotidiana. Também vi paetês metálicos que enriquecem a coleção.
Ficamos, portanto, com jeans, camisas, camisetas, jaquetas e calças e, do outro lado, com uma quantidade considerável de trabalho sobre a superfície. Um antidoto fantástico que impede que a coleção caia no ‘simplesmente comercial’.
Jeans, bolsas e óculos
Já abri detalhes nos parágrafos acima porque ele realmente ganha uma importância especial nessa coleção. Aparece em diferentes proporções e lavagens, inclusive em construções que alteram sua relação tradicional com o corpo e esteve presente na passarela e nos looks dos convidados, firmando-se como uma das ferramentas principais dessa aproximação entre luxo e cotidiano.
As bolsas participam diretamente dessa operação. A Le City e a Rodeo aparecem dentro de uma proposta mais macia, flexível e cotidiana e os óculos também recebem bastante atenção e ajudam a completar essa imagem.
É um desfile que parece pensar na roupa, mas também no que vem depois dela: bolsa, sapato, óculos, joia. Uma coleção bastante completa.
O metal e a joalheria
Os metais vieram em dourado e prata. Mais do que simplesmente funcionar como acabamento, a joalheria parece participar da construção do corpo e do look. Há uma lógica de acessórios que se aproxima da roupa, em vez de funcionar apenas como algo colocado sobre ela.
Um dos acessórios finais chama especialmente atenção pela maneira como cria uma continuidade visual entre a região da orelha e o pescoço. É uma solução particularmente interessante porque transforma o acessório em parte da arquitetura do look. E tem tudo para virar febre.
Uma Balenciaga mais fácil de vestir, mas não mais fácil de entender
Nas minhas anotações, deixei uma frase ao final da página do caderno: mais fácil de vestir, só que com borogodó.
Pierpaolo está levando princípios de construção, acabamento e savoir-faire associados à tradição couture da Balenciaga para o ready-to-wear. Couture pode ser um método!
Pode estar no corte de um jeans, na construção de uma camisa, na maneira como uma gola se sustenta, no peso de um tecido, na possibilidade de ajustar uma peça ao corpo ou na transformação de uma camiseta em vestido.
É uma mudança de perspectiva que está transformando o oxigênio da Balenciaga.
Uma nova Balenciaga está começando a aparecer
A resposta ainda está em construção, é claro… Mas essa coleção me trouxe uma sensação de que a Balenciaga não está apresentando opções de roupa de passarela. Está entrega um guarda-roupa e o cliente-alvo da marca pegou esse recado 100%, pode apostar.
Vimos uma Balenciaga mais leve, mais tátil e mais interessada na roupa que pode ser usada do que na imagem que precisa provocar uma reação imediata que equilibra o primor do corte com a funcionalidade: a couture encontra o jeans, o volume encontra a leveza, a bolsa encontra o cotidiano e o luxo deixa de ser sinônimo de distância.
Ainda não sabemos se todos esses elementos vão se transformar em códigos fortes e reconhecíveis da nova Balenciaga. Mas há algo que mudou e, pela primeira vez desde a chegada de Piccioli, parece possível enxergar não apenas o designer trabalhando dentro da Balenciaga, mas uma Balenciaga começando a absorver a linguagem dele.
E isso, para uma maison, é onde uma nova direção criativa realmente começa.















