Antes mesmo de uma conversa começar, cores, silhuetas, tecidos, acessórios e formas de apresentação pessoal já participam da maneira como somos percebidos. Essas leituras nem sempre são conscientes, tampouco universais. Ainda assim, influenciam relações sociais, expressões de identidade e julgamentos sobre quem somos e a que grupos pertencemos.
A roupa faz parte do nosso cotidiano e não existe isolada do contexto histórico, das relações de poder e do momento de mundo em que é criada, escolhida e interpretada. Nossos incontáveis livros de História estão aí para provar e não nos deixam mentir.
Entender essa perspectiva amplia a compreensão da moda para além das tendências, das passarelas e do consumo. Mais ainda: nos permite investigar como as roupas se relacionam com transformações culturais, disputas de valores, mudanças nos costumes e diferentes formas de organização da sociedade.
E, exatamente por isso, uma questão me acompanha desde que comecei a escrever, estudar e pesquisar sobre moda, em 2010: se a roupa é parte da nossa comunicação cotidiana, por que o conhecimento sobre moda ainda é tratado como menos relevante do que outras formas de interpretar a sociedade?
A resposta que encontro, depois de tantos anos, tem pelo menos três camadas e já te adianto: não acredito em verdade universal para essa resposta e nosso espaço aqui na plataforma e no canal é aberto à nossa excelente conversa para ampliarmos os pontos de vista. Vamos às camadas que mapeei:
A primeira é a familiaridade. A roupa está no corpo de todos nós, todos os dias, e o que é tão cotidiano passa a parecer natural, e o que parece natural raramente é questionado. Somado a isso existe a nossa inserção socioeconômica e cultural: nosso contexto de criação, de costume e de repertório moldam muito a percepção que notamos sobre a roupa que usamos – muitas vezes, com total desconhecimento do impacto de comunicação não verbal que ela carrega e dos códigos que transmitimos, por cada item que carregamos no corpo, em cores e formas.
A segunda é o recorte que demos ao assunto: a moda circula, na maior parte do tempo, pela linguagem da novidade, da vitrine e da tendência, e esse é o recorte que a conversa pública mais reproduz, inclusive nós, da imprensa. Foi um dos motivos da remodelação mais recente da plataforma e do canal, inclusive.
A terceira é a quem ela foi historicamente associada. O que se liga ao feminino e ao cuidado com a aparência costuma ser tratado como menos sério, e a moda carregou esse rótulo por muito tempo. Estou sendo otimista em usar o verbo no tempo passado – carregou? Talvez.
O fato é que a moda nos ajuda a compreender aspectos da sociedade que nem sempre são ditos, mas que aparecem nas roupas, nos símbolos que escolhemos e no modo como nos relacionamos.
Quando a política também se manifesta no vestir
Na sequência da conversa e meu real motivo para esse artigo vem do momento que estamos vivendo agora, no Brasil: eleições. Talvez você me leia fora deste período, talvez não. O fato é que nas manifestações políticas brasileiras, roupas, cores, camisetas, acessórios e bandeiras ajudam a tornar posições e identidades coletivas reconhecíveis no espaço público: expressam identificação com uma causa, um grupo ou uma liderança e reforçam vínculos entre quem compartilha convicções.
Há aí uma dimensão semiótica. Uma cor ou um símbolo não significa o mesmo em todas as situações, mas funciona como código de reconhecimento quando associado a um grupo ou a uma manifestação, e é lido por quem o usa, por quem divide aquele espaço e por quem observa de fora.
Dos brasileiros que saem de suas casas ou trabalhos para pertencer a um movimento na rua, todos fazem escolhas: a cor da roupa, o acessório, se levam ou não bandeiras, óculos… Escolhemos o tempo todo, nem sempre com consciência do que levamos sobre o nosso corpo.
Um mesmo símbolo pode representar pertencimento para alguns e rejeição para outros. Isso não significa que todos os integrantes de um grupo pensem de maneira idêntica, nem que a roupa revele integralmente suas convicções. Significa que os símbolos visuais participam da construção das identidades coletivas. Em determinados contextos, a roupa ajuda a tornar visíveis posições, vínculos e identidades.
Isso também é moda.
A roupa comunica, mas o significado não é universal
A cena das ruas mostra que a roupa comunica, mas não comunica a mesma coisa para todo mundo. Uma silhueta, uma cor, um uniforme ou um acessório podem evocar pertencimento, autoridade, contestação, tradição ou ruptura. Os significados, porém, dependem da cultura, da época e da situação em que aparecem.
O terno é um bom exemplo. Hoje, ele é associado à formalidade, à competência e à autoridade profissional. Sua história, porém, está ligada a transformações nas convenções de elegância masculina e nas formas de representar posição social. O significado que damos a essa peça não é natural nem imutável: foi construído ao longo do tempo.
O gênero oferece exemplos ainda mais expressivos. No final do século XIX, movimentos de reforma do vestuário feminino defenderam roupas que permitissem maior liberdade de movimento. Calças, saias divididas e outras peças que contrariavam as convenções dominantes participaram de debates sobre autonomia feminina, mobilidade e acesso das mulheres à vida pública.
Nos Estados Unidos, durante o movimento pelos direitos civis, ativistas negros adotavam roupas formais, conhecidas como Sunday best, em manifestações públicas. Essa apresentação ajudava a afirmar dignidade e a contestar uma estrutura racista que negava igualdade de tratamento à população negra. Em outro contexto, integrantes dos Panteras Negras recorreram a uma estética própria, com referências militares, associada à identidade coletiva e à resistência.
Isso não significa que toda pessoa escolha suas roupas com a intenção de expressar uma posição política. Significa que o vestir acontece dentro de uma sociedade marcada por valores, normas e relações de poder, que influenciam tanto as nossas escolhas quanto a maneira como elas são interpretadas. Você pode usar uma peça só porque gosta do caimento, da cor ou do conforto, e ainda assim ela será lida por códigos culturais que ultrapassam a sua intenção.
Não controlamos todas as leituras que fazem de nós, mas podemos ampliar a consciência sobre os códigos que mobilizamos. Afinal, comunicar também é lidar com o ruído entre a intenção e a interpretação, e é nessa diferença que reside parte da complexidade da moda.
Interpretar a moda também é interpretar a sociedade
Por isso a leitura da moda exige contexto. A moda reúne criação, indústria, comércio, comunicação e comportamento, para citar parte dessa enorme engrenagem. Suas manifestações podem refletir transformações sociais, reforçar convenções existentes ou oferecer novas maneiras de representar identidades e valores.
Nem toda mudança estética é uma ruptura política, assim como nem toda escolha de roupa carrega uma intenção consciente de posicionamento. Uma semelhança estética, por si só, não comprova que uma coleção tenha sido concebida como resposta a determinado acontecimento. É preciso distinguir o que os criadores declararam, o que a coleção efetivamente apresenta e o que pode ser interpretado criticamente a partir de seu contexto. A distinção também vale para nós, a imprensa.
E o contexto muda com a geografia. Uma proposta vista nas passarelas de Paris, Milão, Londres ou Nova York não chega ao Brasil com o mesmo significado que recebeu onde foi criada. A circulação de imagens amplia o acesso às referências, mas não elimina as diferenças culturais, sociais, econômicas e climáticas entre os mercados. Podemos, inclusive, vir ao microcosmo de bairros dentro de uma mesma cidade. As cidades de São Paulo e Rio de Janeiro são excelentes exemplo!
Não me canso de repetir que a internet ampliou o acesso às referências e multiplicou as possibilidades de expressão, mas isso não eliminou os códigos sociais que usamos para reconhecer grupos, construir identidades e interpretar os outros.
A busca por pertencimento continua participando das escolhas de vestuário, assim como o desejo de diferenciação, e os dois podem coexistir na mesma pessoa. Certos estilos seguem associados a prestígio, enquanto outros são desvalorizados ou estigmatizados; aparência, classe, raça, gênero e posição social continuam pesando.
A meu ver, a liberdade de vestir não deve (ou, não pode) ser confundida com a ausência de códigos. O que mudou foi a quantidade de referências disponíveis, a velocidade de sua circulação e a possibilidade de diferentes grupos produzirem suas próprias linguagens visuais. Concorda?
Para nós, consumidores, isso muda o jeito de olhar. Não precisamos conhecer toda a história da moda para nos vestirmos bem. Mas compreender os códigos por trás de uma proposta amplia nossa capacidade de interpretar o que vemos, avaliar o que faz sentido para nossa realidade (poder de compra, clima, hábitos culturais, o ambiente em que circulamos) e decidir se desejamos incorporar aquela referência, ou… não. Você pode incorporar uma cor, adaptar uma silhueta, reinterpretar uma combinação ou simplesmente reconhecer a importância de uma referência sem precisar comprá-la. Assim, a informação sobre moda deixa de funcionar apenas como estímulo à compra e passa a contribuir para a formação de repertório.
A roupa faz parte do mundo em que vivemos. Entender o que vestimos e como interpretamos o que os outros vestem é também uma maneira de compreender a sociedade.
E vale lembrar: a roupa que você escolhe participa da sua apresentação ao mundo, mas não resume sua identidade nem determina, sozinha, o que você pensa ou acredita. Abordo muito esse tema com vocês no módulo-bônus Imagem de Performance, no programa de aperfeiçoamento, o OPE – Oratória de Performance. Afinal, a imagem é um dos atributos da comunicação não verbal e determinante, na maioria dos casos e cenários, para que o próximo OK aconteça.
A moda merece ser estudada com a mesma seriedade dedicada a outros fenômenos culturais porque oferece pistas sobre as sociedades que a produzem e consomem. Para quem acompanha moda no Brasil, essa perspectiva permite ir além da reprodução de tendências internacionais: ajuda a compreender de onde vêm as referências, quais códigos estão em jogo e como interpretá-las diante da própria realidade.
Sendo assim, por que a moda ainda é tratada como futilidade?
E, no entanto, apesar de a roupa ser uma necessidade cotidiana, o conhecimento sobre moda costuma ser associado à superficialidade. Boa parte da conversa sobre o vestir fica restrita à aparência, às compras e às novidades da temporada, enquanto história, identidade, economia, cultura e poder recebem menos atenção.
Essa separação não se sustenta quando olhamos para a história do vestuário. Em diferentes épocas e sociedades, o que alguém podia ou deveria vestir esteve ligado à posição social, ao gênero, à religião e às convenções vigentes. Roupas distinguiram posições, reforçaram hierarquias, identificaram grupos e estabeleceram normas de comportamento.
O livro Dress Codes: How the Laws of Fashion Made History, do jurista e pesquisador Richard Thompson Ford, examina as relações entre vestuário, regras sociais, hierarquias e mudanças políticas. E outra obra que respondeu parte de minhas perguntas é o livro Mulher, roupa, trabalho: Como se veste a desigualdade de gênero das queridas Thais Farage e Mayra Couto. O Museum at FIT, em Nova York, também explorou essas conexões em exposições como Fashion & Politics e Power Mode: The Force of Fashion, que abordaram a dimensão simbólica da roupa e sua relação com o poder.
Essas referências mostram que analisar e pensar moda não significa apenas acompanhar o que será vendido na próxima temporada: é investigar uma linguagem visual que participa da vida social.
Quem sabe, a ideia de superficialidade tenha a ver com a importância que damos, ou deixamos de dar, à maneira como nos apresentamos ao mundo?
O fato é que a moda nos ajuda a compreender aspectos da sociedade que nem sempre são ditos, mas que aparecem nas roupas, nos símbolos que escolhemos e no modo como nos relacionamos.
















