Na véspera da abertura oficial da New York Fashion Week, Ralph Lauren apresentou sua coleção feminina Spring/Summer 2027 na Jack Shainman Gallery, em Tribeca, Nova York. O espaço foi mantido branco e minimalista, com bancos revestidos de tecido marfim, criando um contraste deliberado com a riqueza das roupas.
Em 2027, Ralph Lauren celebra os os 60 anos da marca. Por isso, olhar para o arquivo nesta coleção está longe de ser um gesto casual. A marca se aproxima de um aniversário importante e transforma a própria história em matéria-prima para pensar o futuro.
Foram 50 looks apresentados. Nas notas da coleção, Ralph Lauren define a proposta como uma interpretação irreverente do romance, uma nova ideia de elegância ligada a originalidade, caráter, liberdade e à possibilidade de cada pessoa construir seu próprio estilo.
Batendo um olho geral no desfile, vemos que a mulher Ralph Lauren continua reconhecível. Ela continua sofisticada, mas aparece mais sensual, mais despojada e mais jovem. Há menos preocupação em produzir uma imagem perfeitamente arrumada e mais interesse em criar contraste: masculino e feminino, alfaiataria e sensualidade, denim e ornamentação, roupa utilitária e acabamento sofisticado. A coleção preserva o vocabulário da marca, mas muda a maneira como essas palavras são combinadas.
Branco, navy e a força de um código reconhecível
A cartela de cores é extremamente controlada. O desfile começa com o branco, que funciona quase como uma declaração de intenção. Em seguida, o azul-marinho assume grande parte da coleção e estabelece com o branco uma das combinações mais tradicionais da linguagem Ralph Lauren.
Essa contenção cromática permite que outras coisas ganhem protagonismo: a proporção, a construção das roupas, os tratamentos de superfície e, principalmente, a maneira como peças conhecidas são deslocadas de seu lugar habitual.
O desfile começa, portanto, praticamente como uma declaração de identidade em branco, navy, alfaiataria, camisas, calças e jaquetas, em silhuetas limpas. É o Ralph Lauren que reconhecemos imediatamente, mas basta observar as proporções para perceber que alguma coisa mudou.
A proporção como ferramenta de atualização
As calças ficam maiores. A cintura desce (sim, gente, a cintura está descendo em t-o-d-a-s as grifes). As jaquetas se tornam mais ajustadas e, muitas vezes, mais curtas.
Essa relação entre uma parte superior mais próxima do corpo e uma parte inferior extremamente volumosa aparece como um dos elementos mais marcantes da coleção. As calças surgem amplas, compridas e baixas no quadril, com grande quantidade de tecido. Algumas têm pregas e construção próxima da alfaiataria masculina. Outras recebem fileiras de botões laterais que descem da região da panturrilha até a barra, criando uma silhueta imediatamente identificável. É uma proporção que pode dividir opiniões, principalmente para quem ainda não se convenceu da volta da cintura baixa. Mas, na minha opinião, é justamente por isso que ela merece atenção.
A moda não precisa convencer todo mundo imediatamente para começar a produzir mudança visual.
Em contraponto, muitas das jaquetas são curtas, ajustadas, estruturadas e, em alguns casos, cropped, algumas com ombros marcados.
Os coletes também ganham protagonismo. Alguns aparecem alongados, com caudas muito compridas que quase transformam a peça de alfaiataria em uma extensão de vestido.
O resultado é uma silhueta construída pelo contraste: volume embaixo, estrutura em cima. Masculino em uma peça, sensualidade em outra. Rigor da alfaiataria ao lado de uma peça fluida. É uma das maneiras encontradas por Ralph Lauren para atualizar um código que já conhecemos muito bem.
O arquivo como matéria-prima
A coleção também estabelece uma conversa direta com a história da própria marca.
Há referências ao arquivo de Ralph Lauren, incluindo elementos associados à coleção Spring/Summer 2003 e à trajetória inicial do designer. Um dos exemplos mais interessantes é a releitura de um dos primeiros ternos femininos desenhados por Ralph Lauren, originalmente produzido em uma fábrica italiana especializada em alfaiataria masculina.
Outro detalhe recupera um elemento importante da própria história profissional de Ralph Lauren: a gravata larga, que esteve entre os produtos que ajudaram a lançar sua carreira. Essas referências não aparecem como reprodução literal de uma coleção antiga. Elas são filtradas pela linguagem atual da marca. Essa é uma distinção importante quando falamos de arquivo na moda. Repetir uma peça antiga é uma coisa e, saber qual código daquela peça ainda tem força e encontrar uma nova maneira de utilizá-lo, é outra.
É exatamente essa operação que Ralph Lauren realiza aqui.
Quando a camisa ganha corseteria
A camisa branca tradicional, um dos elementos mais reconhecíveis do universo Ralph Lauren, também passa por essa transformação. Ela aparece estruturada por elementos de corseteria, com amarrações, recortes e construções que aproximam a camisa masculina de uma linguagem mais sensual.
A corseteria, aliás, aparece como parte de um movimento maior observado na temporada: o corpo ganha importância mesmo dentro de coleções construídas a partir da alfaiataria. Vimos isso desde o look#1.
No verão 27 da Ralph Lauren essa sensualidade nasce justamente da tensão entre códigos tradicionalmente masculinos e elementos associados ao guarda-roupa feminino.
Do denim ao vestido de noite
O jeans também aparece dentro dessa lógica de deslocamento. Denim, alfaiataria, penas, coletes, camisas estruturadas e peças de noite convivem dentro da mesma coleção. Um vestido de noite pode aparecer sobre calças. Uma peça de inspiração utilitária recebe ornamentação. Uma construção masculina ganha sensualidade e uma roupa casual recebe acabamento sofisticado.

Esse tipo de combinação é importante porque mostra que Ralph Lauren não está simplesmente adicionando tendências ao seu repertório, está reorganizando relações que já existem dentro dele.
Quando o desfile avança para os vestidos, a silhueta muda. Entram vestidos longos, fluidos e envelope, peças que acompanham o corpo, decotes profundos, transparências e costas abertas.
Um dos vestidos envelope foi construído com uma única costura, permitindo que o tecido tenha uma queda particularmente fluida sobre o corpo.
A sensualidade aparece de maneira muito mais evidente do que em uma leitura tradicional do universo Ralph Lauren, mas ela continua sendo construída a partir de elementos sofisticados e relativamente simples.
Os materiais da coleção percorrem um território bastante amplo: algodão, denim, jacquard, seersucker, seda, silk lamé, veludo, chiffon, shearling, couro, tricô e superfícies com lantejoulas.
A coleção apresenta uma série de tratamentos de superfície que dão às roupas aparência de tempo, irregularidade e intervenção. O chamado spritz and tumble, por exemplo, é um processo de lavagem utilizado para deixar alguns vestidos propositalmente enrugados.
Há também técnicas de hand painting e burnout, utilizadas para criar variações de intensidade de cor e uma aparência de pátina em superfícies como silk lamé e veludo.
Em uma das peças, fios utilizados no bordado recebem aplicação de gesso. Em outra, lantejoulas são tratadas para reduzir o brilho. Há ainda um processo de spray paint aplicado sobre seda brocada, criando uma superfície de efeito pictórico. O shearling também aparece em construção ombré, com uma técnica de tecelagem que ajuda a reduzir seu peso.
São soluções diferentes, mas todas trabalham uma mesma ideia: a superfície perfeita, intocada e excessivamente nova dá lugar a uma aparência de matéria transformada.
O luxo aqui não depende apenas de uma matéria-prima sofisticada. Ele aparece também na transformação da matéria.

O romance ganhou uma leitura mais livre
Na parte final do desfile, a coleção se aproxima ainda mais do universo de eveningwear.
Entram seda, veludo, chiffon, brilho, franjas e vestidos fluidos. Novamente, Ralph Lauren evita transformar esse momento em uma ruptura completa com o restante da coleção.
Um vestido pode aparecer sobre calças e a peça de noite pode ser combinada com elementos masculinos, assim como o brilho pode dividir espaço com denim e a roupa sofisticada pode ser acompanhada por sapatos baixos.
A coleção apresenta flats, mules e saltos baixos ao lado de sandálias mais delicadas. O resultado é uma ideia de glamour menos dependente do salto alto. É uma elegância que pode circular e pode misturar formalidade e conforto sem perder sofisticação.
Os acessórios reforçam essa leitura: chapéus de palha, broches florais, lenços, bolsas brancas, clutches maiores, versões da Ralph Bag e a nova Madison Bag, além de brincos de efeito chandelier.
O que Ralph Lauren está realmente propondo?
É tentador olhar para uma coleção como essa e sair procurando apenas tendências como cintura baixa e corseteria, franja e transparência. Mas a leitura mais interessante está em observar que Ralph Lauren está tornando seu código de elegância menos rígido e isso é particularmente relevante para uma marca que possui uma identidade visual tão forte.
Quando uma marca já tem um vocabulário imediatamente reconhecível, ela não precisa necessariamente inventar uma nova linguagem a cada temporada. Ela pode mexer na sintaxe. É assim que o familiar começa a parecer novo.
Ralph Lauren chega aos 60 anos olhando para trás, mas a coleção não funciona como uma celebração nostálgica do próprio passado. O arquivo aparece como ferramenta de construção. Para uma marca com identidade forte, inovação não precisa significar abandonar aquilo que a tornou reconhecível. Pode significar conhecer profundamente os próprios códigos e saber exatamente onde mexer neles.
Ralph Lauren continua sendo Ralph Lauren. Mas agora o clássico parece ter ganhado mais liberdade.















