Na coleção Behesht, Jasmin Larian Hekmat transforma uma experiência íntima de perda em uma narrativa de beleza, matéria e transformação e amplia o vocabulário da Cult Gaia sem abandonar o DNA.
Por Cris Cardoso
Há desfiles que apresentam roupas, há desfiles que apresentam uma coleção e há aqueles em que a roupa parece carregar alguma coisa que existia antes dela.
A coleção Behesht, da Cult Gaia, apresentada na New York Fashion Week para a primavera-verão 2027, pertence a essa terceira categoria.
Behesht é uma palavra persa associada a céu ou paraíso e foi exatamente daí que a coleção nasceu. Jasmin Larian Hekmat, diretora criativa da Cult Gaia, viveu o luto em janeiro desse ano, com a morte de sua avó, Mommy Aghdas.
O ponto de partida poderia facilmente resultar em uma coleção excessivamente literal sobre luto. Não foi o que aconteceu. Jasmin nos trouxe uma coleção que ofereceu uma reflexão mais leve e, ainda assim, profunda, inspirando a perda convivendo com a beleza, matéria, cor e movimento.
A narrativa do desfile cumpriu perfeitamente esse papel de contar uma história por cores e formas, como uma espécie de passagem da escuridão da dor e do luto para a luz da memória feliz, da leveza e da honra em seguir.
O início da coleção é mais fechado, com verde-oliva profundo, preto e tons sóbrios. Aos poucos, a paleta se ilumina, os tecidos ganham movimento, as flores aparecem, o rosa toma conta do momento final e a coleção termina em uma espécie de suspensão. Não vemos ruptura brusca entre os dois momentos, ao contrário! Só transformação, como um processo humano consciente faz: há o choque, a constatação da perda, o luto temporário e, como a sabedoria da natureza, o amadurecimento dessa dor, transformando-se em leveza, memórias e a honra de seguir representando tudo que um ente amado nos dedicou.
Você confere a galeria de highlights ao final do artigo
Do concreto ao paraíso
O local escolhido para a apresentação foi o Gilder Center, do American Museum of Natural History, projetado pela arquiteta Jeanne Gang. Escolha zero por acaso. Jasmin chamou atenção para a maneira como Gang trabalha o concreto, um material duro e estrutural, criando uma arquitetura que pode parecer orgânica e quase fluida.
A coleção estabelece uma conversa semelhante entre matéria e forma. Tecidos delicados adquirem estrutura, superfícies suaves tornam-se escultóricas e o que poderia ser apenas leveza ganha peso visual. Por todo o desfile da coleção Behesht, vemos contrapontos entre dureza e suavidade, estrutura e fluidez, natureza e construção e o conceito central do luto e da celebração.
A Cult Gaia continua sendo Cult Gaia
É importante observar o que mudou sem perder de vista aquilo que permaneceu. A Cult Gaia construiu sua identidade em torno de um universo muito particular. Resortwear, sensualidade, corpo, bolsas-objeto, recortes, franjas, superfícies esculturais, materiais que chamam atenção e peças que possuem uma presença quase arquitetônica.
Esses códigos continuam aqui, são visíveis e fundamentais para a identidade de branding e comunicação da marca. Aliás, como sempre digo em aulas e mentorias pelo Ponto de Performance, uma marca não precisa abandonar aquilo que a tornou reconhecível para demonstrar evolução, pelo contrário. Uma expansão consistente de marca acontece quando novos códigos são incorporados sem destruir o código genético existente.
É exatamente o que começa a aparecer em Behesht mostrando que a Cult Gaia amplia seu território. Entram com mais força a alfaiataria, o menswear, formas estruturadas e uma exploração mais sofisticada de materiais. O tailoring verde-oliva de ombros marcados, acompanhado por uma calça capri, por exemplo, desloca a percepção da marca para além do imaginário mais óbvio do resortwear.
Vemos mudanças, mas ainda sabemos onde estamos. Há sensualidade, corpo, brilho, natureza, objeto e desejo. Há Cult Gaia, apenas com novas possibilidades.
O acessório vira roupa
Agora, vamos a um dos movimentos mais inteligentes da coleção que foi a maneira como Jasmin leva elementos já associados à Cult Gaia para dentro da própria construção das roupas.
Os discos dourados, reconhecíveis nas bolsas da marca, aparecem transformados em superfícies para saias e vestidos.
É uma operação aparentemente simples, mas muito importante do ponto de vista de branding. O arquivo da marca deixa de ser apenas uma coleção de produtos anteriores e passa a funcionar como vocabulário. Fiquei com a sensação de ver a marca falar consigo mesma! Isso é bem diferente de repetir um produto que funcionou. É puro branding em transformar um código em linguagem.
O mesmo aconteceu com a manipulação dos tecidos. Plissados, seda, organza, tweed, superfícies metálicas e diferentes técnicas de construção aparecem criando uma coleção em que a matéria deixa de ser apenas suporte para a forma e passa a participar da narrativa.
A sensualidade também amadureceu
Nessa coleção primavera-verão 2027, a sensualidade da Cult Gaia continua presente, mas ela não depende exclusivamente da exposição do corpo. Aparece na transparência, no movimento, na textura, na maneira como o tecido acompanha a silhueta e na relação entre pele e matéria. A mulher Cult Gaia continua sendo sensual, mas pode agora ser também estruturada, sofisticada, quase arquitetônica.
Uma coleção construída em contraste, do sóbrio ao luminoso
Já abordei o tema acima, mas vale enaltecer a alternância entre ombros marcados, alfaiataria mais quadrada, calças capri, shapes amplos, vestidos fluidos, transparências, peças ajustadas ao corpo, saias longas e shorts estruturados. O corpo ora é contido pela estrutura, ora liberado pelo movimento do tecido.
A construção cromática talvez seja uma das formas mais claras de acompanhar a narrativa de Behesht. O desfile começa com o verde-oliva profundo, o preto e os tons mais fechados e passa a cena às cores mais luminosas. O rosa ganha protagonismo no final, especialmente nas peças de seda que parecem flores ou penas em movimento. Outra atmosfera… Trouxe os highlights na galeria, abaixo, para você.
O momento de fantasia
Os vestidos finais foram um dos grandes momentos do desfile. A seda pintada à mão foi trabalhada com dip-dye para criar a aparência de penas, produzindo uma imagem quase fantástica. O desfile terminou com pétalas de flores caindo sobre a passarela.
É um daqueles momentos em que a moda assume plenamente sua capacidade de criar sonho! Como sempre digo, uma passarela também constrói imaginário e imaginário para uma marca como Cult Gaia, é particularmente relevante.
A fotografia faz parte da estratégia da roupa, a fantasia faz parte do produto e o desejo faz parte do negócio. Cult Gaia vende uma ideia de verão, viagem, corpo, beleza e liberdade. Então, nem sempre a peça extraordinária na passarela será aquela que terá maior circulação na rua, mas pode ser justamente aquela que fixa uma imagem da marca na memória.
E, nesse sentido, o espetáculo não fica fora da estratégia, mas a compõe. E considero isso fascinante!
O acessório como assinatura
Os acessórios continuam ocupando uma posição central na marca. Bolsas escultóricas que deixam de ser apenas bolsa e podem se transformar em referência para uma roupa, elementos metálicos, joias de presença, sandálias, gladiadoras, chapéus e colares longos prolongam a linguagem da marca.
Os colares especialmente longos também dialogam com uma movimentação mais ampla observada nesta temporada por veículos especializados, aparecendo em diferentes desfiles com interpretações próprias. Estamos de olho nisso desde a temporada passada. Vamos ver se emplaca.
O código genético de uma marca e o que marcou Behesht
Os vestidos de ‘penas’ provavelmente serão as imagens mais compartilhadas da coleção. Mas eles não são, para mim, o ponto mais importante. O que merece atenção é a evolução da Cult Gaia.
Jasmin Larian Hekmat parece compreender isso. Ela preserva os elementos que fazem alguém olhar para uma peça e reconhecer Cult Gaia, mas os coloca em novas combinações, novos materiais e novas proporções. É assim que uma marca constrói repertório, não apagando sua história, mas usando sua história como matéria-prima para o próximo capítulo.
Behesht é, nesse sentido, uma coleção sobre luto. Mas também é uma coleção sobre transformação. E talvez por isso o desfile termine justamente onde começou a sua ideia central: diante da possibilidade de transformar uma experiência de perda em alguma coisa que continua. Beleza, neste caso, não aparece como negação da dor, aparece como sua transformação.
A marca parece estar fazendo uma transição bastante estratégica: de uma marca conhecida por peças visualmente impactantes para uma marca de peças visualmente impactantes com uma assinatura cada vez mais singular e um repertório mais amplo.
A diferença parece pequena na frase. Na estratégia de marca, ela é enorme porque a Cult Gaia não está tentando deixar de ser a Cult Gaia! Está tentando descobrir até onde a Cult Gaia pode ir.
Img Credits: Cult Gaia















