Na segunda coleção de Rachel Scott à frente da Proenza Schouler, a marca americana começa a ganhar novos contornos. Para a primavera verão 2027, a designer parte da liberdade da mulher nova-iorquina para aproximar alfaiataria, sensualidade, peças desestruturadas, cores intensas, animal print e trabalhos artesanais.
A coleção primavera verão 2027 da Proenza Schouler é o segundo desfile de Rachel Scott à frente da direção criativa da marca e aconteceu em um endereço especialmente simbólico para a história da casa: o antigo espaço da Barneys New York. Foi justamente a Barneys o primeiro grande varejista a comprar e vender Proenza Schouler, quando Jack McCollough e Lazaro Hernandez ainda estavam começando a construir a marca.
O endereço funciona, portanto, como uma ligação bastante direta entre a Proenza criada por seus fundadores e a nova fase que começa com Rachel Scott. Mas não se trata de uma coleção voltada para recuperar literalmente aquilo que a marca já foi. Depois de uma primeira coleção ainda muito ligada ao reconhecimento do território da casa, Rachel aparece agora mais segura para experimentar o que pode ser uma Proenza Schouler sob seu olhar.
Uma mulher que não se veste ‘por categorias’
A ideia central vem da própria observação de Rachel Scott sobre as mulheres de Nova York. Para ela, existe uma liberdade particular na maneira como essas mulheres se vestem porque elas não seguem necessariamente as regras tradicionais de ocasião. Um vestido de noite pode aparecer durante o dia, uma bolsa não precisa obrigatoriamente acompanhar determinado tipo de roupa e uma peça sofisticada pode conviver com outra muito mais simples.
É essa mistura que organiza boa parte da coleção. A Proenza não abandona a alfaiataria, os vestidos longos ou a sofisticação que fazem parte de sua identidade, mas deixa de tratar cada um desses códigos como pertencente a uma situação específica. Um vestido drapeado aparece com uma sandália simples. A alfaiataria ganha cor. Uma peça mais elaborada pode ser usada de maneira despretensiosa. O resultado é uma roupa que parece menos preocupada em construir um look perfeito e mais interessada em acompanhar a mulher que está usando aquela roupa.
Essa mudança é conectada ao nosso impacto visual logo no início do desfile. A imagem é mais solta do que aquela apresentada na primeira coleção de Scott para a casa. As formas ficam menos rígidas, os volumes deixam mais espaço para o corpo e existe uma espécie de imperfeição controlada no acabamento e no styling. Se a temporada anterior parecia mais composta e arrumada, o verão 2027 aparece mais desestruturado e menos comprometido com a ideia de perfeição. Em vários looks, senti como se uma de nós – consumidoras- tivesse construído a edição do look.
Isso não significa que a Proenza tenha deixado de ser uma marca sofisticada e intelectual. Esses códigos continuam presentes. O que muda é a maneira como eles são articulados. Rachel Scott parece estar tornando essa mulher menos rígida e permitindo que ela misture formalidade, sensualidade, conforto e acaso.
A alfaiataria continua, mas perde rigidez
A alfaiataria permanece como uma das bases mais importantes da Proenza Schouler. A diferença está na proporção e na maneira de usá-la. Os ternos e casacos continuam trazendo a construção precisa que esperamos da marca, mas aparecem ao lado de elementos mais fluidos, texturas artesanais, cores intensas e peças que deixam o corpo participar mais da construção do look. E outra: o veludo em ternos faz uma dupla mira: remete à estrutura de uma alfaiataria com a sensualidade que o veludo exala.
Essa relação entre estrutura e liberdade é uma das partes mais interessantes da coleção. Rachel não abandona a construção para tornar a roupa mais fácil. Ela usa a construção como ponto de partida e depois afrouxa essa estrutura.
Os vestidos seguem uma lógica semelhante. Há peças longas, drapeadas e de forte presença, inclusive vestidos de paetês (meus preferidos) que poderiam facilmente ocupar uma situação formal, mas que são apresentados com sandálias rasteiras. A escolha muda completamente a leitura da roupa. O vestido deixa de depender de uma produção sofisticada para fazer sentido.
É aí que entra o que podemos chamar de desformalização da Proenza. Não como uma rejeição à sofisticação, mas como uma maneira de retirar da roupa a obrigação de obedecer a um código único de ocasião.
Zebra, animal print e superfícies
A estampa de zebra é, sim, um dos momentos gráficos mais evidentes da coleção, especialmente nos casacos e vestidos com jacquard de zebra. Há também referências a animais, florais, listras curvas e desenhos geométricos, os florais tradicionais e as versões mais experimentais feitas a partir de cianotipias, além de diferentes tratamentos do tricô.
Esse interesse pelas superfícies aproxima o trabalho de Rachel Scott de uma característica bastante evidente de sua própria linguagem como designer: o interesse pelo trabalho manual, pelo tricô, pela textura e por materiais que deixam a mão de quem produz perceptível na roupa. O resultado não é uma coleção artesanal no sentido tradicional. É uma coleção em que o artesanal passa a interferir em uma roupa sofisticada e urbana.
Cor e uma nova temperatura para a marca
A Proenza Schouler sempre teve uma relação importante com os neutros. Preto, branco, off-white, bege, tons terrosos e outras cores mais controladas aparecem com frequência no repertório da marca. Nesta coleção, Rachel Scott mantém essa base, mas aumenta consideravelmente a presença da cor.
Vermelho, azul, verde, amarelo e outros tons mais saturados aparecem ao lado dos neutros, criando uma coleção visualmente mais expressiva. A cor deixa de funcionar apenas como um ponto de destaque e passa a participar da construção da imagem da mulher.
Isso também acontece na relação entre roupa, estampa e beleza. A maquiagem ajuda a intensificar algumas das combinações cromáticas e faz parte de uma imagem menos discreta do que aquela tradicionalmente associada à Proenza.
É uma mudança pequena na estrutura da marca, mas importante na percepção que ela produz. A Proenza continua sofisticada, mas fica menos silenciosa.
A PS1 volta ao centro da conversa
E então chegamos à bolsa. Não qualquer uma. Falamos da PS1, lançada originalmente em 2008 e que se tornou um dos objetos mais reconhecíveis da Proenza Schouler. Inspirada nas tradicionais schoolbags, a bolsa carregava aquele equilíbrio entre utilidade, sofisticação e ausência de ostentação que combinava perfeitamente com a imagem da marca naquele período.
Agora Rachel Scott recupera esse código e o transforma na PS1 Walker, desenvolvida em colaboração com Reed Krakoff. A nova versão mantém elementos reconhecíveis da original, mas recebe couro mais macio, linhas mais curvas, uma construção mais relaxada e três tamanhos. O nome Walker também faz referência ao endereço do primeiro estúdio da Proenza Schouler, na Walker Street, em Nova York.
Rachel Scott pega um dos objetos que ajudaram a construir a imagem da Proenza e pergunta o que precisa ser alterado para que ele volte a fazer sentido agora. O resultado está na suavização da estrutura, nas novas proporções e na possibilidade de usar a bolsa de maneira mais descontraída. É uma atualização de um código conhecido sem apagar sua origem.
A PS1 Walker foi uma excelente estratégia
Os artigos de couro representam cerca de um terço das vendas da Proenza Schouler, segundo a Vogue, e a empresa pretende ampliar esse negócio. A PS1 Walker, portanto, funciona ao mesmo tempo como produto, patrimônio de marca e instrumento de reconstrução do desejo em torno dos acessórios. Ela estará disponível comercialmente a partir de janeiro de 2027.
O que mudou na Proenza Schouler?
Talvez a melhor maneira de entender esta coleção seja perceber que Rachel Scott não está tentando fazer uma ruptura com a Proenza Schouler. Ela está alterando a maneira como os códigos da casa se comportam.
Por isso, eu não diria simplesmente que a Proenza ficou “mais comercial” ou “mais fácil”. A mudança é mais interessante do que isso. Ela ficou mais aberta à interpretação de quem veste.
A frase da própria coleção, segundo as notas do desfile, resume bem essa direção: as roupas devem dar espaço para a mulher. É uma diferença importante para uma marca que durante anos foi reconhecida justamente pela construção, pela precisão e pelo controle visual.
O que pode chegar à rua?
Aqui a coleção oferece algumas pistas bastante concretas:
A alfaiataria colorida tem potencial porque mantém a sofisticação da marca, mas permite uma utilização menos corporativa. Os vestidos longos usados com sandálias simples também são uma proposta fácil de transportar para a vida real. A zebra, continua sendo um elemento forte para quem quer introduzir informação visual sem mudar completamente a estrutura do guarda-roupa.
O veludo também merece atenção porque aparece deslocado daquele lugar tradicional de roupa noturna. E as bolsas com estrutura mais macia acompanham uma preferência cada vez maior por acessórios que mantenham a aparência sofisticada sem parecer excessivamente rígidos. A PS1 Walker traz a retomada dos códigos dos anos 2000 ganhando força, e pode recolocar a Proenza Schouler no imaginário de uma geração que conhece a bolsa como objeto histórico, mas pode enxergá-la agora com outra referência de estilo.
No geral
Rachel Scott está apenas começando a escrever sua história na Proenza Schouler. A primeira coleção estabeleceu uma base. Esta segunda mostra uma designer mais confortável para interferir nessa base e inserir elementos que vêm de seu próprio repertório.
Proenza continua urbana, sofisticada e intelectualmente construída. Só que agora existe mais espaço para movimento, textura, cor, sensualidade e acaso. Tenho a sensação de que Rachel Scott ainda não entregou uma fórmula definitiva para a sua Proenza Schouler. Pela primeira vez, começamos a enxergar não apenas uma sucessora ocupando uma casa importante da moda americana, mas uma designer testando, com mais liberdade, o que essa casa pode se tornar.















