Transparências, lingerie à mostra, franjas, pedrarias e combinações de tecidos conhecidos aparecem nas coleções de 2027. Mais do que uma viagem nostálgica, esse movimento pode revelar uma estratégia interessante da indústria da moda diante de um consumidor e de um mercado mais cautelosos.
Quem acompanha as semanas de moda internacionais talvez tenha percebido uma sensação de déjà-vu nas coleções para 2027. Algumas referências parecem ter saído diretamente dos anos 2000 e da década seguinte. Transparências em camadas, peças inspiradas no universo da lingerie, franjas, jeans ornamentados, rendas e tecidos fluidos voltaram a ocupar espaço nas propostas de diferentes marcas.
Seria simplificar demais dizer que a moda está apenas repetindo o que já vimos? Seria… O que aparece nas passarelas é uma recuperação de elementos conhecidos, agora organizados em novas combinações, proporções e possibilidades de uso. Afinal, existe uma diferença importante entre reproduzir uma tendência antiga e trabalhar novamente com seus códigos estéticos.
E foi esse fator que mais me chamou atenção nas leituras da moda proposta nas semanas de moda recentes, para o verão 2027 do hemisfério norte.
O familiar ganha novas combinações
Nos anos 2000 e 2010, a moda experimentou diferentes maneiras de aproximar o vestuário íntimo da roupa cotidiana, misturar referências românticas com peças casuais e acrescentar informação visual a itens tradicionalmente básicos.
Na temporada de 2027, encontramos movimentos que conversam diretamente com esse repertório.
As transparências, por exemplo, não aparecem necessariamente como uma exposição direta do corpo. Elas podem ser construídas em camadas, com sobreposições que criam profundidade e deixam a pele aparecer de maneira mais sutil. É uma maneira de trabalhar sensualidade sem depender exclusivamente de peças reveladoras.
Outra referência conhecida é a aproximação entre sleepwear e streetwear. Camisolas, vestidos de inspiração lingerie, tecidos acetinados e acabamentos delicados deixam de pertencer exclusivamente ao ambiente doméstico ou às ocasiões noturnas. Com novas combinações, passam a integrar produções urbanas.
O interessante é observar como uma peça que antes poderia parecer deslocada na rua ganha contexto quando combinada com elementos de outra linguagem.
Renda, chiffon e transparência: o romantismo ganha textura
Impossível passar batido pela renda que vive um mega momento de retomada.
Durante muito tempo, ela foi associada principalmente à lingerie, à roupa de festa e a uma estética bastante feminina e, sim, extremamente sensual.
Nas propostas atuais, aparece em composições que exploram contrastes de textura e transparência. A combinação de renda com chiffon, por exemplo, amplia as possibilidades de construção visual. Enquanto um material pode trazer desenho, textura e acabamento, o outro acrescenta fluidez e leveza.
O resultado não depende necessariamente de uma peça elaborada isoladamente, mas da relação entre os materiais.
Essa mesma lógica aparece nas transparências trabalhadas em diferentes camadas, nos tecidos que deixam entrever outras peças e na construção de looks que alternam áreas mais cobertas e outras visualmente mais leves.
É uma releitura de códigos conhecidos, mas com novas possibilidades de composição.
Franjas e pedrarias: a ornamentação volta ao cotidiano
Outro movimento que chama atenção é a presença de elementos bordados e aplicados, em peças que fazem parte do guarda-roupa cotidiano.
As franjas, muito associadas às referências boho e às produções dos anos 2000, reaparecem em roupas e acessórios, acrescentando movimento e textura.
No jeans, a ornamentação ganha destaque. Pedrarias, aplicações, bordados e outros elementos decorativos transformam uma peça tradicional em um ponto de interesse da produção. Vemos uma aproximação interessante entre duas linguagens: a informalidade do denim e a riqueza visual dos acabamentos ornamentais. O jeans deixa de ser apenas a base neutra do look e passa a participar ativamente da construção estética. Não é uma novidade absoluta. É uma maneira de recuperar uma combinação que já fez parte do repertório da moda e apresentar novas versões dela.
Por que revisitar referências conhecidas agora?
Abri esse tema no vídeo (deixo embed abaixo) mas vale o registro aqui na plataforma, também:
A indústria da moda opera em um cenário internacional marcado por conflitos geopolíticos, instabilidade econômica, mudanças no comportamento de consumo e incertezas sobre o futuro dos mercados.
No melhor estilo ‘the show must go on1, de um lado temos uma panela de pressão prestes a explodir simultaneamente em alguns países e, do outro, a economia que já anda bem das pernas, seguindo no violino enquanto o Titanic afunda.
As grandes marcas do hemisfério Norte desenvolvem suas coleções considerando não apenas movimentos estéticos, mas também as condições comerciais em que essas peças chegarão às lojas e o contexto de humor do público para comprar, comprar e comprar no meio do fuá geral.
Isso não significa que os estilistas tenham deixado de experimentar ou que exista uma decisão coletiva de evitar riscos. A moda continua precisando de novidade para manter seu poder de atração. Entretanto, existe uma diferença entre criar algo completamente desconhecido e apresentar uma nova interpretação de elementos que o consumidor já reconhece.
Em períodos de maior cautela, a familiaridade pode ser uma aliada comercial. Uma peça com referências conhecidas tende a exigir menos esforço de compreensão do que uma proposta que rompe completamente com os códigos visuais já estabelecidos.
A Vogue, ao analisar as coleções de outono/inverno de 2026, chamou atenção justamente para a importância da usabilidade e da possibilidade de sobreposição em um mercado marcado por incertezas geopolíticas e dificuldades comerciais.
É uma observação relevante para entender o contexto em que a moda de 2027 está sendo construída. A novidade não desaparece. Ela passa a conviver com elementos que oferecem maior reconhecimento e possibilidades de adaptação ao cotidiano.
Não é uma volta declarada aos anos 2000. Tem atualização de repertório.
Existe uma diferença entre vestir novamente uma tendência exatamente como ela foi apresentada há vinte anos e reconhecer que determinados elementos continuam oferecendo possibilidades interessantes de composição. Também clareio isso no vídeo.
Uma transparência pode ganhar outra leitura quando usada em camadas. A renda pode sair da associação exclusiva com a lingerie e encontrar espaço em uma produção urbana. O jeans ornamentado pode atualizar uma peça tradicional. As franjas podem acrescentar movimento sem que seja necessário reproduzir uma estética boho completa. O mesmo vale para o sleepwear incorporado ao streetwear. A referência é conhecida, mas o contexto de uso e as combinações podem transformar completamente a percepção da peça.
Por isso, olhar para as tendências de 2027 também é uma oportunidade de revisitar o próprio guarda-roupa. Talvez você já tenha uma peça de renda, uma blusa transparente, um jeans com aplicações ou aquele vestido de inspiração lingerie que ficou guardado depois de uma temporada de uso.
Antes de procurar uma novidade nas vitrines, vale observar como esses elementos podem ser incorporados às produções atuais. Não se trata de deixar de comprar ou de transformar o consumo consciente em uma regra de restrição, mas de reconhecer o que já existe, entender o que realmente mudou e fazer escolhas com mais informação.
A moda se renova o tempo todo, mas nem toda renovação exige começar do zero.
Quer ver como essas referências aparecem nas coleções e o que realmente mudou em relação aos anos 2000 e 2010?
No vídeo novo do canal CrisCardoso.com, analiso as tendências de moda para 2027, comparo as referências das passarelas e mostro por que essa temporada tem tantas conexões com peças e estéticas que já conhecemos.
Assista ao vídeo e depois me conte por lá: você também teve essa sensação de já ter visto muita coisa antes?















