Margaret Qualley apareceu na première de Ponto Sem Retorno (The Dog Stars), em Londres, usando uma das criações mais curiosas da Chanel, marca da qual é embaixadora: o chamado barefoot heel cap.
Peraí…. Seria o sapato nu a nova versão do naked dress?
Depois de vestidos transparentes, tecidos que praticamente desaparecem sobre o corpo e aquela longa história de roupas que parecem mais uma segunda pele do que propriamente uma roupa, talvez tenha chegado a vez dos pés.
E quem resolveu levar essa ideia para o tapete vermelho foi a stylist de Margareth Qualley, Danielle Goldberg. A atriz, que é embaixadora da Chanel, apareceu na première de Ponto Sem Retorno (The dog stars), em Londres, vestida de Chanel da cabeça aos pés. Ou quase.
O que roubou a cena e rendeu infinitos memes não foi o vestido preto, com decote V e aplicações que lembravam franjas. Foram os pés. Ou melhor, a quase ausência de sapatos nos pés.
Margaret Qualley estava usando um modelo de barefoot heel cap apresentado por Matthieu Blazy na coleção Cruise 2027, da Chanel. O acessório é uma espécie de calcanheira de salto e fica presa à região do calcanhar e do tornozelo, deixando a parte da frente do pé completamente exposta e sem sola tradicional.
Considerando o fator inusitado do acessório, a marca e os registros do evento, podemos dizer que foi um gol de placa porque a intenção foi alcançada com sucesso. Por dias, a internet setor-moda não falou em outra coisa. Dá uma olhada:
Foi suficiente para transformar uma atriz chegando a uma première em uma das imagens mais comentadas da moda recente. Porque, convenhamos, se Margaret tivesse chegado com uma sandália preta convencional, provavelmente estaríamos falando do vestido. Mas ela apareceu praticamente descalça. De Chanel. E, agora, todo mundo está falando dos pés dela.
O sapato nu é o novo naked dress?
A ideia não surgiu exatamente naquele tapete vermelho. O barefoot heel cap já havia aparecido na coleção Cruise 2027 da Chanel, apresentada em Biarritz, na França e, como apontei no vídeo (deixo ao final deste artigo para você), contexto importa.

No contexto daquele desfile, a peça não parecia tão aleatória quanto pode parecer quando você vê uma fotografia de uma atriz caminhando por Londres. A coleção dialogava com o universo do litoral, do verão, do mar e da ideia de estar quase descalço e a própria Biarritz tem uma relação importante com a história de Coco Chanel, que passou temporadas na cidade e ajudou a construir ali parte do imaginário ligado à sua vida e à sua relação com o esporte, o mar e o lazer.
Ou seja, aquele pé praticamente descalço (Hola, Shakira) fazia sentido dentro daquela narrativa. Mas existe uma coisa curiosa acontecendo aqui…
A moda já passou alguns anos testando os limites da nudez no corpo, o naked dress fez isso de maneira literal: o vestido continua ali, mas sua função de esconder começa a desaparecer e a roupa vira transparência, vira segunda pele.
E agora parece que a pergunta chegou aos pés: até que ponto você consegue tirar o sapato sem que ele deixe de ser um sapato?
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Eu já produzi e vendi barefoot sandals
Sim, talvez eu tenha um olhar um pouco diferente para essa história porque eu já vendi muito barefoot sandal na época em que tinha a marca de acessórios. Então, sei que a ideia de deixar o pé praticamente nu, mas ainda fazer alguma coisa acontecer visualmente nele, não é nova. Ou seja, existe público para isso e existe ocasião para isso.
Na Europa, especialmente em ambientes de verão, praia, festas sunset, decks, barcos e outros lugares em que você quer estar praticamente descalça, mas ainda quer que o pé faça parte do look, o barefoot sandal pode funcionar muito bem, quase como uma joia para os pés. Você não está exatamente calçada, mas também não está completamente descalça.
E aí está uma diferença importante em relação à Chanel. Uma barefoot sandal é, essencialmente, um acessório. Você pode usar a peça e, depois, colocar uma sandália por cima, uma sapatilha… O acessório continua no pé, funcionando como um detalhe.
Aqui, não. Aqui, a calcanheira não acompanha o sapato. Ela é o sapato. E acho que é justamente aí que Matthieu Blazy faz a coisa ficar interessante. Ele não criou simplesmente uma sandália minimalista, ele levou a ideia de sapato até o limite, até quase desaparecer.
Não me encantou exatamente como novidade. Depois que a Balenciaga abriu as portas do inferno e mostrou que até o absurdo pode virar produto, buzz e, depois, item esgotado, confesso que pouca coisa ainda consegue me fazer arregalar os olhos.
Quanto de um sapato é necessário para ele continuar sendo um sapato?
Essa pergunta parece boba até você perceber que a moda vive fazendo isso. Uma bolsa precisa ser grande o suficiente para carregar alguma coisa? Um vestido precisa cobrir o corpo? Um salto precisa ser confortável? Uma roupa precisa proteger do frio?
A resposta, quase sempre, é: não necessariamente. A moda não trabalha apenas com função, trabalha com linguagem, e essa diferença é fundamental.
Quando alguém olha para o barefoot heel cap e pergunta “mas para que isso serve?”, está tentando avaliar uma peça conceitual usando a régua de um produto utilitário. É como olhar para uma obra de arte e perguntar se ela seria uma boa decoração para a sala.
Pode ser… Mas não é necessariamente essa a questão.
A passarela não existe apenas para colocar produtos na prateleira, ela também é laboratório, espetáculo, pesquisa e provocação. Passarela é construção de imagem, a maneira de uma marca dizer alguma coisa, e nem tudo que nasce na passarela precisa terminar na rua exatamente da mesma maneira.
Talvez ninguém precise usar aquilo para ir trabalhar. Talvez ninguém precise atravessar São Paulo ou Londres com a planta do pé diretamente sobre o chão.
É claro que, quando uma cena dessas aparece na internet, a internet começou a fazer o que faz muito bem quando encontra uma peça estranha: criou piadas. “Mas quem vai usar isso?” ou “Eu nunca usaria” ou mesmo “Isso é ridículo!” e a melhor “Sapato culposo: quando não há intenção de calçar.” foram memes, sobretudo, de quem não faz parte do universo de marca Chanel. E isso não significa que a Chanel tenha errado, muito pelo contrário.
A passarela também é uma máquina de produzir conversa
Existe uma ideia muito importante quando falamos de grandes marcas de moda (abro melhor o tema no vídeo): nem sempre o produto mais comercial é o produto que vai construir mais imagem. Uma coleção pode apresentar dezenas de ideias, das quais parte serve para vender e parte ajuda a construir o universo da marca.
Algumas vão parar nas vitrines e outras vão parar nas redes sociais. Algumas serão reproduzidas em versões mais acessíveis e outras vão simplesmente fazer alguém parar o scroll e pensar: “Que diabos é isso?” E pronto…
A conversa começa, a pessoa que nunca ouviria falar daquela coleção agora sabe que ela existe, entra no site, vê o sapato estranho, dele clica na bolsa, nos óculos… Lembra do perfume!
Um produto leva ao outro, a peça mais absurda pode não ser o destino da compra, já pensou nisso? Ela pode ser a porta de entrada. É por isso que eu acho tão limitada a pergunta “quem vai comprar isso?”. Talvez pouca gente compre, mas muita gente vai olhar e vai falar.
E por que colocar isso no pé de Margaret Qualley?
A escolha da atriz deixa tudo ainda mais inteligente. Margaret Qualley é embaixadora da Chanel e tem uma relação estabelecida com a maison. Ela não simplesmente apareceu em um tapete vermelho usando um sapato estranho, ela apareceu usando um sapato estranho no lugar certo, na hora certa e diante das câmeras certas.
Foi clicada ao lado de Jacob Elordi, seu colega de elenco em Ponto Sem Retorno, que usava um visual muito mais convencional da Bottega Veneta. De um lado, um homem vestido de maneira tradicional, com roupa e sapatos. Do outro, uma mulher praticamente descalça.
A foto já estava criada e a comparação visual era instantânea. A moda funciona muito bem quando uma imagem pode ser entendida antes mesmo de qualquer explicação. Se Margaret tivesse usado uma sandália tradicional, provavelmente estaríamos falando do vestido.
Matthieu Blazy entendeu uma coisa importante sobre a Chanel
Existe ainda uma camada que me interessa bastante nessa história:
Matthieu Blazy assumiu a direção criativa da Chanel em um momento em que a maison enfrenta um dos desafios mais difíceis para qualquer marca histórica. Como continuar sendo reconhecida como Chanel sem parecer presa ao próprio passado? Como preservar os códigos que construíram a marca sem simplesmente repetir esses códigos para sempre?Como falar de Coco Chanel sem transformar cada coleção em uma aula de história? Como fazer uma marca centenária parecer contemporânea?
Uma marca de luxo pode envelhecer de duas maneiras: porque seu público envelhece com ela ou pode envelhecer porque deixa de produzir desejo cultural.
Talvez uma das funções de um novo diretor criativo seja justamente impedir que isso aconteça. Blazy não precisa apagar Chanel, mas… precisa fazer Chanel voltar a ser assunto. E isso exige risco. Exige alguma dose de estranhamento e peças que façam alguém olhar duas vezes.
A coleção Cruise 2027, apresentada em Biarritz, recupera referências ligadas ao universo de Coco Chanel e ao imaginário do litoral, mas as coloca em uma linguagem contemporânea e isso ajuda a explicar o barefoot heel cap. A ideia de estar descalça faz sentido naquele universo.
Só que Blazy transforma essa ideia em um objeto de luxo: você está praticamente descalça, meu bem. Mas está de Chanel.
Essa ironia é muito boa!
O absurdo também pode ser estratégia
O estranho não precisa ser o oposto do comercial e exemplos não nos faltam ao longo dos anos. Às vezes, o estranho é o caminho para o comercial! Uma marca que só apresenta coisas bonitas, previsíveis e fáceis de entender pode até vender, mas corre o risco de não ser comentada.
Uma marca que coloca na passarela alguma coisa que parece absurda pode criar um momento e momentos circulam. A imagem de Margaret Qualley usando o barefoot heel cap já saiu da coleção, da Chanel e do tapete vermelho. Entrou no noticiário, nas redes sociais. Virou discussão, virou busca, virou conteúdo e, agora virou este artigo.
É exatamente assim que uma peça de moda deixa de ser apenas um produto e passa a funcionar como comunicação.
Talvez você não tenha que usar
Talvez você realmente não tenha que usar e eu também não. A moda não precisa oferecer uma solução para todas as pessoas… Ela precisa, entre outras coisas, ampliar o repertório do que consideramos possível. E, convenhamos, é fácil criticar algo que já foi criado. Por outra pessoa. Porque, antes daquele objeto existir, você nem sequer tinha pensado naquela possibilidade. Agora você pensou.
O barefoot heel cap talvez nunca vire um sapato popular e certamente aparece em versões mais comerciais. A moda já fez isso muitas vezes… O que hoje parece absurdo pode virar repertório amanhã.
No final, a peça funcionou
O que uma marca ganha quando consegue fazer o mundo inteiro discutir uma peça que aparentemente não deveria existir?
A Chanel ganhou atenção, Margaret Qualley ganhou todos os closes. Matthieu Blazy ganhou mais uma oportunidade de mostrar que sua Chanel não pretende simplesmente repetir o passado. E o filme ganhou seu momento fashion. Não sei quanto a você, mas eu sequer sabia dessa premiere até o ocorrido a lá Shakira.
No final, a peça funcionou exatamente como precisava funcionar. Ela fez aquilo que uma boa peça de moda, uma boa imagem e uma boa estratégia de marca precisam fazer.
Fez a gente olhar.
E depois de olhar, fez a gente pensar até que ponto você consegue tirar o sapato sem que ele deixe de ser um sapato?
Não tenho essa resposta, mas sei que enquanto a gente discute, a Chanel conseguiu exatamente o que queria. E agora, a gente só torce para que Margaret Qualley esteja com a carteirinha de vacinação em dia.
No aguardo pela versão Waka Waka.
















