Análise Mondepars Desfile Alda – Inverno 2026

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O terceiro desfile da Mondepars aconteceu hoje em São Paulo e deixou mais clara a direção criativa que Sasha Meneghel está construindo para a marca: uma moda minimalista, elegante, emocional e extremamente apoiada em construção.

A coleção recebeu o nome “Alda”, homenagem à avó de Sasha. E essa referência atravessava toda a apresentação de maneira muito coerente. Existia memória ali, mas traduzida com sofisticação contemporânea.

O desfile caminhou por uma estética minimalista sim, mas muito sensorial. A cartela de cores veio concentrada em tons neutros, terrosos, off-whites, pretos e nuances suaves que reforçavam profundidade e permanência, criando imagens atemporais.

As modelagens apareceram fluidas, com silhuetas alongadas e a alfaiataria que é marca registrada da grife, veio menos rígida, mais orgânica. As roupas tinham presença, mas sem endurecer o corpo. O caimento foi um dos elementos mais fortes do desfile.

Os tecidos tiveram papel central na narrativa visual. Superfícies foscas, texturas naturais, materiais encorpados em alguns momentos e extremamente leves em outros. A sensação era de uma coleção construída para ser percebida de perto, no toque, no movimento e na matéria.

As sobreposições me chamaram muito e merecem destaque especial. A Mondepars trabalhou camadas de forma muito refinada, criando profundidade visual sem excesso, o que nem sempre é fácil de fazer. Alguns looks traziam volumes suaves e composições quase arquitetônicas, mas mantendo leveza.

Outro detalhe forte da coleção foi o trabalho de desconstrução elegante em certas peças. Algumas golas apareciam deslocadas para a região da cintura e do quadril, como se partes tradicionais da roupa tivessem sido reposicionadas no corpo. Isso criava um efeito escultórico muito interessante (a tendência das anquinhas) e aproximava o desfile de estudos de moulage e modelagem experimental.

E por falar em modelagem experimental, a parte final da apresentação trouxe uma linguagem ainda mais estrutural (confira abaixo, no vídeo). Algumas peças pareciam quase moldes em processo de construção, pareciam estruturas feitas em resina, polímero rígido moldado ou algum composto termomoldável com acabamento translúcido e brilho vítreo. Peças belíssimas! A sensação visual vinha justamente desse efeito entre escultura e roupa.

Por todo o desfile, a coleção inverno da Mondepars parecia caminhar da memória afetiva para a construção manual, da herança emocional de Dona Alda para o ateliê. Em vários momentos, as roupas revelavam a própria engenharia da moda, expondo estruturas, deslocamentos e formas que normalmente ficam invisíveis. E talvez esteja justamente aí uma das leituras mais interessantes do desfile.

Em um momento em que grande parte da moda tenta competir por impacto imediato, viralização e excesso de informação visual, a Mondepars escolhe caminhar no sentido oposto, um caminho menos ruidoso e com muito mais memória.

A coleção trouxe uma estética limpa, sofisticada e extremamente sensorial. Alfaiataria suave, tecidos com movimento confortável, acabamento artesanal e uma atmosfera que parecia traduzir carinho em forma de roupa.

E ressalto uma camada ainda mais estratégica nisso tudo: quando uma marca consegue transformar memória afetiva em linguagem visual, ela deixa de vender apenas produto. Parte para o campo da percepção, do pertencimento com narrativa. Existe um entendimento muito inteligente de posicionamento nisso tudo.

É visível que Sasha vem trazendo para a Mondepars a percepção pelo refinamento, com textura, modelagem e simbologia. A marca começa a ocupar um espaço que conversa muito mais com luxo emocional e profundidade estética do que com tendência imediata.

O desfile “Alda” reforçou justamente essa sensação de roupas feitas para permanecer na memória pela construção, pela matéria e pela atmosfera que carregam.

Nada nesse desfile parecia exagerado, barulhento ou desesperado por atenção. Existia segurança estética com muita coerência. Uma marca que entende que, hoje, sofisticação também passa pela capacidade de editar excessos.

Espero que Dona Alda esteja feliz. Foi lindo de ver daqui de baixo.

Confira na íntegra:

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