Três semanas foram o espaço entre o desfile de estreia e o lançamento da primeira campanha de Pierpaolo Piccioli à frente da Balenciaga. O resultado marca o início de uma virada estética e simbólica para a maison francesa que, durante anos, flertou com o experimental e o provocativo. Agora, a marca abre espaço para uma linguagem emocional, calorosa e humana pelos olhos – e o talento – de Pierpaolo Piccioli.
Uma Balenciaga mais próxima do corpo
Fotografada por David Sims, a campanha foi ambientada em um hôtel particulier parisiense e traz imagens de quietude: luz natural, tecidos macios, corpos relaxados, e uma sensação de pausa. As modelos Mona Tougaard e Sandra Murray aparecem deitadas, quase em estado contemplativo, vestindo peças fluidas e atemporais, cercadas pelas bolsas-ícone da marca.
Tudo parece sussurrar em vez de anunciar. A nova Balenciaga se afasta da ironia e do ruído visual que marcaram a era de Demna Gvasalia e se aproxima de algo mais afetivo. Piccioli descreve essa transição como um “retorno à humanidade do vestir”.
“Quis criar algo verdadeiramente pessoal, que contasse uma história de beleza sem esforço e de humanidade delicada.”
— Pierpaolo Piccioli
O contraste com o passado
Sob o comando de Demna, Balenciaga foi símbolo do exagero e da crítica social em forma de moda. Silhuetas distorcidas, cenários distópicos e um discurso sobre consumo e identidade dominaram os últimos anos da marca.
Com Piccioli, a narrativa se desloca. Ele mantém a arquitetura e o rigor técnico, heranças de Cristóbal Balenciaga, mas os envolve em poesia e suavidade. Se antes a maison provocava o olhar, agora busca tocar o afeto e é esse o principal recado que recebemos.

A estética da leveza consciente
O olhar de Piccioli, refinado durante sua longa passagem pela Valentino, traz para Balenciaga a noção de luxo emocional. Tecidos ganham movimento, cores assumem tons de calma, e a mulher retratada é real: vulnerável, confiante e presente, definida pela sensibilidade, pela força silenciosa e pelo autocontrole.
As bolsas Le City e Rodeo, ícones de diferentes fases da marca, voltam ao centro da narrativa. A primeira, um clássico dos anos 2000, reaparece como símbolo de continuidade; a segunda, criada em tempos recentes, é reinterpretada com nova sensibilidade. Ambas funcionam como metáforas do equilíbrio que Piccioli busca; o entrelaçar do passado e do presente em um gesto único.
Um gesto estratégico
Essa virada não é apenas estética. Ela traduz uma mudança de posicionamento. Em tempos em que o público jovem exige autenticidade, propósito e conexão, Balenciaga se reposiciona sem negar sua história. Piccioli traz o toque humano que faltava: mostra que a moda pode ser conceito e ainda assim ser calorosa.
O soft power que ele propõe é poderoso porque não impõe. Ele convida. Convida o olhar a repousar, a sentir textura, luz e tempo – valores que parecem raros em uma indústria movida por urgência.
O novo luxo
O luxo que Piccioli introduz na Balenciaga não está mais no inatingível, mas no cuidado. É o luxo da presença, do toque, do silêncio entre as imagens. Se Demna transformou a marca em manifesto, Piccioli a transforma em confidência. E esse é o tipo de evolução que redefine o que significa ser contemporâneo no mundo da moda.














