Pantone e WGSN: impacto ficou fraco, mas o preço simbólico foi alto

0
27
5/5 - (1 vote)

Uma análise direta sobre Pantone e WGSN na cor do ano 2026 mostrando como narrativa e contexto impactam nas escolhas do público.

O debate sobre os anúncios das cores do ano tomou conta da internet. Deixando de lado o gosto pessoal do “adoro branco” ou “ain… prefiro o verde”, meu foco foi outro.

Analisei a coerência de imagem na comunicação e o peso de explicar bem o porquê de uma escolha, em um mundo que urge por mais clareza de intenção.

Nunca foi tão necessário manter o discurso alinhado ao contexto quando nosso intuito é apresentar uma cor como símbolo cultural de um período.

Hoje a gente conversa sobre excessos que banalizam, contexto, a importância das cores em tempos que pedem sentidos claros e como, sem querer, a Pantone acabou virando a melhor garota propaganda para ajudar a WGSN a furar a bolha e alcançar o grande público.

As cores do ano 2026

Vejo tanto a Transformative Teal (Coloro/ WGSN) como a a Cloud Dancer (Pantone) convergindo para o mesmo ponto. A diferença está no caminho que cada empresa percorreu para defender sua escolha e transmitir a mensagem. Foi exatamente aí que os ruídos ficaram mais altos.

Na corrida [quase] maluca…

Quem saiu na frente no anúncio foi a WGSN em parceria com a Coloro, e por um motivo claro: posicionamento estratégico.

A Coloro é jovem. Criada em 2017, cresceu rápido, mas não carrega as décadas de hegemonia que a Pantone possui. Ao anunciar primeiro, a WGSN evitou ocupar o papel de segunda voz. Afirmou sua narrativa e reforçou autonomia, mostrando que tendência não precisa orbitar ao martelo batido da Pantone e, de quebra, deixando claro (e de agora em diante, mais claro ainda) que a Coloro tem autoridade técnica para conduzir a conversa, não só reagir a ela.

Transformative Teal

A proposta da Coloro com a WGSN veio com um azul esverdeado profundo e elegante. Evoca natureza, corpo, mente e tecnologia. Fala de movimento consciente, adaptação e nostalgia tecnológica. Em tempos de incerteza e turbulência sociocultural, soa como convite à reconstrução, transformação e resiliência. É uma cor com densidade simbólica e promessa de evolução.

Cloud Dancer

Do outro lado, a Pantone trouxe Cloud Dancer, um branco neutro e leve, apresentado como calmaria. Interpretado como apatia.

A motivação da empresa tinha tudo para fazer sentido. Vivemos uma época de excesso de estímulos e insegurança. A neutralidade poderia oferecer um respiro. A intenção era dialogar com a sensibilidade coletiva, propondo menos excesso, mais silêncio.

Mas… Não convenceu.

No título de veículos internacionais: “Pantone acusada de racismo após nomear ‘branco puro’ como cor do ano de 2026

Para entendermos o futuro, voltemos uma casa no tabuleiro

Para entender por que Cloud Dancer gerou um baita ruído mundo afora, é preciso olhar para o papel da Pantone.

Ela é a referência histórica e mundial no quesito padronização de cor. Criou um sistema usado por todos os setores que trabalham com cor, e isso vai muito além da moda.

O anúncio anual da cor do ano, desde 1999, surgiu como programa educacional para envolver a comunidade global de design em uma conversa cromática. A escolha é feita por especialistas que observam cinema, arte, moda, tecnologia, mídias sociais e grandes eventos.

A reação geral à escolha do branco foi imediata. Cloud Dancer, o primeiro branco eleito como cor do ano pela Pantone, foi apresentado como sussurro de calma e tela em branco para novos começos. Mas as leituras foram outras.

Para muitos, a cor soou sem alma, fria e neutra demais para um momento que clama por identidade e emoção. Houve críticas com carga simbólica e política, dadas as tensões raciais, polarização e ascensão de movimentos sociais. No campo técnico, designers disseram que branco não muda nada: sempre esteve lá como cor segura. No Reddit, o tom ficou mais ácido. “Minimalismo foi longe demais” e “Isso não é nem cor” foram alguns dos comentários.

A sensação geral: retrocesso estético e simbólico. O branco virou sinônimo de inércia.

Contextualizando a crítica estética

Nos últimos anos, surfamos estéticas que saturaram o imaginário visual. Do estilo escandinavo ao Old Money, passando pelo Quiet Luxury e atingindo o minimalismo saturado que virou uniforme de feeds, vitrines e influenciadores, o até então branco da paz, do réveillon, da pantalona de linho puro que circulava pela Oscar Freire e milagrosamente não sujava 1 milímetro da barra da calça, deixou de sinalizar refinamento e virou código de pertencimento superficial. Uma estética esvaziada.

Em um mundo complexo, a cor foi banalizada, ganhou a sensação de falta de convicção.

O anúncio da Pantone veio como uma jaca madura e pesada que despenca do galho mais alto e vai em cheio da cabeça de um coletivo exausto – sim – mas ávido por mudanças. O branco saiu da esfera das cores. Foi observado como insensível e inadequado frente aos inúmeros confrontos de intolerância racial e religiosa que vemos no mundo.

Como mencionei no vídeo, o mundo está tal e qual uma panela de pressão prestes a explodir. Usar a ‘neutralidade’ para representar um cenário que está tudo menos neutro, bateu como um descompasso. Nas palavras de especialistas: anestesia, apatia, estéril…

Outro fator que perdeu o compasso da bateria bem na hora do recuo e que também foi apontado pelo Gil Pinna (excelente publicitário): a Pantone foi uma das primeiras marcas a popularizar IA com o anúncio do Mocha Mousse, que inundou a internet. Você lembra? Fiz matéria na época e vários conteúdos em vídeo. Aí, para defesa da cor 2026, a empresa fala em excesso, em diminuir o ruído do mundo acelerado… Oi?

As ideias estavam empilhadas na minha cabeça para fechar meus materiais, mas não fiquei sem azeitona na minha empadinha. Nas pesquisas de apuração, dei de cara com essa matéria no site da People:

 

“Pouco depois do anúncio da cor de 2026, Pressman disse ao The Washington Post que os “tons de pele” não foram levados em consideração.

“Com Peach Fuzz [de 2024]  e Mocha Mousse  [de 2025]  , as pessoas perguntavam se a cor tinha a ver com tons de pele. E eu acho que nós pensávamos: ‘Nossa, sério?'”, disse ela. “Porque, para nós, no nível mais básico, trata-se de descobrir o que as pessoas procuram e que essa cor pode oferecer.”

A diretora-executiva do Pantone Color Institute, Leatrice Eiseman, abordou as críticas sobre uma suposta falta de criatividade em entrevista ao The Washington Post , afirmando que não se tratava de “optar pelo branco”.

Na verdade, a cor representa uma tela em branco, “abrindo novos caminhos e formas de pensar”, disse ela.

Gente, em que planeta esse povo vive? Você diz que sua empresa, presente em X lugares do mundo, elege a cor do ano desconsiderando a panela de pressão que o mundo vive? “Nossa, sério?” digo eu!

A explicação da “pausa” desejada pela Pantone não convenceu a maioria. Como justificar uma cor que pretende representar o espírito do tempo ignorando camadas tão evidentes?

Em vez de respiro, o branco da Pantone bateu para boa parte do público como anestesia criativa, excesso de neutralidade arquitetônica e excesso de branding minimalista. Não como refúgio estético. A sensação é de cansaço, não de novidade.

Escolha segura ecológica e comercial

Não tem como dissociar o valor comercial dessa equação toda. A opção pela neutralidade tem vantagens práticas e comerciais. É segura, vendável e eficiente. Mas também tímida e conservadora.

Conectada mais à conveniência do que à simbologia, o branco que serve para tudo raramente sustenta singularidade. Ele dilui narrativa e neutraliza diferenças. Funcionaria como declaração se viesse acompanhado de discurso forte sobre significado e mudança de paradigma. Como isso não veio, o impacto ficou fraco. O preço simbólico foi alto.

Ao universalizar o neutro, a Pantone se afastou da identidade e da leitura precisa do presente.

No fim, a WGSN e sua Coloro saíram fortalecidas. Tansformative Teal acertou na densidade emocional, conexão com movimentos sociais e uma narrativa alinhada ao espírito do tempo. A diferença não está na paleta. Está na história contada em torno dela. Ao anunciar primeiro, a Coloro ganhou autonomia e fugiu da posição histórica de satélite. Isso foi técnico, estratégico e narrativo.

E no final da fritada, a Pantone fez o grande favor de ser a melhor campanha de ads para a WGSN, vejam vocês… Quem não pertencia ao círculo interno da moda e desconhecia Coloro e até a WGSN, agora conhece.

O verde azulado (ou azul esverdeado) veio mais alinhado ao momento que vivemos. Fala do futuro de forma ativa e aponta para o digital expandido, também pede respiro. A diferença é que pede tudo isso sem amnésia.

Caso interesse

Para quem prefere a experiência cognitiva completa, o vídeo no canal do Youtube (aqui) e o podcast no Spotify (aqui) e na Amazon Music (aqui) podem acompanhar a leitura da newsletter pelo Substack (assine gratuitamente aqui) e do artigo, no criscardoso.com.

E um recado importante para você ou para alguém que você pode ajudar:

Em função do Natal, liberamos uma ação solidária para matrículas no Oratória de Performance. São 6 preços e você escolhe o quanto pode/ quer pagar. Os alunos que escolhem as faixas mais próximas ao preço real ajudam a custear as matrículas de alunos que precisam melhorar a comunicação e a oratória e só podem entrar nos valores mais acessíveis.

O treinamento é perfeito para quem está em processo seletivo, busca promoção ou quer destravar a comunicação para melhor performance no próprio negócio.

Todos os bônus estão mantidos, assim como a facilidade nas condições de pagamento e a participação nas lives de mentoria, que começam após o carnaval. Garanta sua vaga porque a ação é válida apenas em dezembro/25. Clique aqui

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui