A semana de moda de Copenhagen tem um borogodó diferente

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Se você tem qualquer piscadela mais carismática para moda, provavelmente foi bombardeado com conteúdo sobre a Copenhagen Fashion Week nos feeds das últimas semanas. Eu fui. Risos. As centenas de conteúdo rasgando elogios ao evento me fizeram refletir sobre o tamanho da carência do brasileiro em valorizar o que o mundo aplaude e a gente insiste em desprezar e esse foi meu tema na TAGLINE (nossa newsletter) que liberei hoje no Substack.

Copenhagen chegou às semanas de moda oficialmente em 2006, resultado da fusão de feiras têxteis que existem desde os anos 50. E não é só hype. Para participar, as marcas precisam cumprir critérios oficiais: sustentabilidade, materiais conscientes, condições de trabalho dignas, design original, narrativa genuína, direção estratégica, produção responsável do desfile… A lista é grande.

O sonho das marcas de lá não foge à regra: todo mundo quer ser visto, desejado, consumido. De fato, algumas marcas amadurecem tanto que são compradas por conglomerados. É o ciclo de sempre… A lástima é que o diamante que fez a marca brilhar vai parar na planilha do financeiro do grupo que, custe o que custar, prioriza os zeros à direita acima de tudo, até acima da genialidade criativa. O desfecho, mais cedo ou mais tarde, é o que vemos acontecer há anos. Declínio, apatia, prejuízo.

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Copenhagen tem um borogodó diferente. Não chamou atenção só pelos chinelos, Havaianas ou pela famosa “chinelada da discórdia” da The Row que virou febre no mundo e foi o tema da PERFORMANCE anterior (se você não viu a edição anterior da newsletter do PoP, corre aqui).

A semana de moda de Copenhagen trouxe esperança em forma de camadas, cores, formas, handmade (muito) e risos cheios de leveza. Minha aposta é mais profunda do que as fotos do street style mostraram. Para mim, o que nos hipnotizou foi o último ponto, o mais poderoso: risos cheios de leveza.

A moda brasileira sempre babou na gringa, numa súplica silenciosa para ser aceita. Há quem defenda o indefensável, justificando que historicamente faz muito sentido e blablabla. Ok, temos 525 anos que, para mim, já são aninhos mais que suficientes para darmos tapinha nas nossas costas criativas e esfuziantes, concorda comigo? Minha crítica é eterna: uma parcela do consumidor de moda brasileiro segue com a bandeirinha pedindo validação externa antes da autoaceitação. Seja a validação da gringa, seja a validação dos ‘confiáveis’. Como é possível alterar os resultados com a ordem torcida?

O Brasil é rico em talentos. Crochet, tricô, macramê e acessórios (para citar parte do nosso acervo) tão esplêndidos como os da Miu Miu e da Prada. A pessoa que vos fala faz crochet, tricô, tapeçaria e ponto-cruz desde criança! Dou aulas para centenas de artesãos e criei a EMA, o braço do PoP exclusivo para artistas de manualidades, exatamente para abrir a cabeça da galera que cria. É a minha parte. Pessoas esgotam os sites gringos para comprar 100, 200 vezes mais caro ao invés de encomendar de um artesão, diretamente. Espremem a paciência, o psicológico e o emocional do artista com a desculpa do “preço justo”. Uma rápida olhada nos comentários das redes já entrega essa verdade.

Foi um parágrafo com resposta pronta, eu sei… Há explicações técnicas para a solução do dilema valor real x valor percebido e elas estão no branding que não foi feito, no marketing obtuso de achar que ‘só’ o perfil da rede social resolve os problemas, e na comunicação desvalorizada, assim como o produto da galera, que ironia.

Ver tanta gente sorrindo no street style de Copenhagen trouxe esperança de que a gente volte a sorrir no vestir também. Afinal, moda é isso: retrato instantâneo de épocas, humores e emoções.

O que talvez tenha batido mais forte não foi o que a mídia mostrou. Parte do Brasil abraçou o “carimba e cola” do “ser elegante” na adoção do amarelo manteiga, metal dourado, pose clássica com mão no queixo para fotos. Um desespero supremo sufocando a criatividade genuína para a maioria.

A lição esquecida ficou clara: não é o fora que resolve o dentro.

Copenhagen escancarou o poder da liberdade criativa, do vestir sem julgamento, e deixou à mostra a pasteurização de outras semanas de moda, muito mais planilhadas do que inventivas.

Você pode não adorar tantas camadas que parecem desconexas. Você pode não se reconhecer em looks mais criativos, não é esse o ponto.

A moda brasileira pode virar diamante de novo. Brilhando do jeito que só a gente sabe. A questão é querer: querer olhar para dentro, valorizar antes o que é nosso, apoiar marcas internas que tenham qualidade e o respectivo borogodó.

Mais que sempre, o slogan do CCC faz sentido para mim. Espero que faça para você, também.

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