A polêmica do bustiê aos 50 anos

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Idade não é o foco deste site. Aliás, idade deixou de ser foco da minha vida desde o segundo semestre de faculdade; a primeira ocasião em que confundi – e, esqueci – quanto anos eu tinha. Foi uma situação embaraçosa e, ao mesmo tempo, libertadora.

Hoje, enquanto fazia meu ritual de pesquisa na internet, me deparei com um título na globo.com quase inacreditável, em tempos de recolocações de pensamentos e ações sobre padrões estéticos e preconceitos que ainda ronda a mulherada, no mundo todo.

O assunto referia-se à matéria que a Vogue Brasil fez, sobre o ocorrido com a modelo dinamarquesa (que teve o auge da carreira na década de 90) e o bustiê que ela usava em abril:

O fuá rolou em abril desde ano, mas, a dimensão das consequências… Para quem não soube o que rolou:

Na comemoração de seu aniversário, Gigi Hadid reuniu uma turma estrelada que contou com a presença de Helena Christensen, supermodelo da década de 90 e que hoje está na casa dos 50 anos. Como o dresscode da festa pedia jeans, Helena escolheu um bustiê de renda preta para compor o look. Esse aí da foto de cima. E lá foi ela.

Eis que o modelito não passou despercebido por Alexandra Schulmann, ex-editora da Vogue britânica, que usou sua coluna no “Daily Mail” (veículo para o qual a cidadã escreve) para duras críticas à Helena.

O título:

“Desculpe, Helena, mas você é velha demais para usar este tipo de roupa”.

O conteúdo:

(…) “nós podemos gostar de pensar que os 70 são os novos 40; e os 50, os novos 30, mas nossas roupas sabem a verdadeira história. Não importa o quão atrevidos sejam seus seios, como suas pernas são longas, nossas roupas simplesmente não parecem as mesmas quando envelhecemos porque são sobre a pessoa que as usa e não sobre os itens em si. É sobre a pessoa – não apenas o corpo – que nos tornamos”, escreveu a jornalista. “Algo que você vestiu aos 30 nunca ficará igual 20 anos depois. Roupas não mentem”.

Ecos de revolta e bustiês unidos

O fuá rende até agora. Alexandra foi praticamente metralhada digitalmente. Via IG, a própria Helena foi fina, elegante e sincera, ao postar outra foto com o mesmo bustiê e a legenda “Vamos continuar nos elevando e nos dando suporte, todas vocês mulheres bonitas, inteligentes, divertidas, sexies, trabalhadoras e estimulantes por aí. #OpsElaVestiuBustiêDenovo”, escreveu. Olha aí:

O instagram dela, por sinal, é uma delícia pros olhos. Primeiro que a beleza é absurda, mas a curadoria das fotos (minhas de trabalhos publicitários, inclusive) é esplêndida. Helena dosa super bem a divulgação da imagem comercial e a de sua vida pessoal.

Coincidência ou não, o perfil dela traz fotos de uma beleza sem idade, com tops rendados e roupas lindíssimas, alheias ao número do RG.

A voz do Brasil na marcha pelo bustiê

De todos os comentários que circulam sobre o assunto e que estão na matéria da Vogue Brasil, destaco 2 que descrevem com mestria o meu sentimento (e pensamento): Lilian Pacce e Vivian Sotocórno:

“Sem entrar na questão se é chic ou cafona, acho que a Helena está perfeitamente bem e não vejo nenhum drama que desabone a produção que ela usou na festa. Essa questão de idade está totalmente superada, as pessoas estão envelhecendo com espíritos mais jovens e, portanto, buscando manter o corpo e a mente da mesma forma. Acho um preconceito gigantesco da Alexandra Shulman não apenas com a questão da idade, mas toda a sua colocação. É um pensamento híper antigo, totalmente desatualizado e desconectado da realidade de hoje, onde a moda e o mundo estão buscando mais aceitação e diversidade de corpos, de idades, raças e gêneros. Achei o artigo uma bobagem e considero esse tipo de mentalidade, de fato, muito ultrapassado. Imagine uma mulher de 50 anos que, além de tudo é linda, não poder usar um bustiê ou tomara-que-caia? E mesmo que ela fosse mais velha e não tivesse esse corpo de modelo – que a Helena ainda tem hoje –, não haveria o menor problema. As mulheres têm que se libertar desse tipo de preconceito e usar o que se sentem bem de verdade”. Lilian Pacce, jornalista de moda

“O mundo mudou e também a moda. Cada vez mais celebramos a individualidade e a personalidade – e hoje não faz mais sentido algum decretarmos que algo ‘pode’ ou ‘não pode’ ser usado por alguém, seja por conta da idade ou biótipo. Acredito que usar ou não determinada peça tem muito mais a vez com estilo e personalidade do que com idade. Eu mesma, aos 30 anos, tenho peças que não entram em meu guarda-roupa pois não combinam com meu estilo – e que mulheres de 70 poderiam perfeitamente usar. Cada um tem a liberdade de dar o próprio padecer. Triste é ver que vivemos numa era onde todos acham que podem emitir opiniões sobre absolutamente tudo e todos, torço por um mundo com mais compaixão e empatia.” Vivian Sotocórno, editora de moda da Vogue

Temos um longo caminho a trilhar, minha gente… Mas já está mais fácil do que era 10 anos atrás. Não desistamos.

Créditos da pesquisa: globo.com, 50emais, IG Helena 

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