A pizza que vira piada e a autorresponsabilidade

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Somos um povo enaltecido no mundo todo pela empatia e a alegria. Coisa linda. Mas como todas as disciplinas que lidam com humanos explicam, uma mesma característica pode ser positiva ou negativa. Tudo para no ‘depende’. E, nessas semanas de alarme mundial sobre o Covid-19, tenho refletido mais do que nunca sobre isso…

Não sei você, mas a quantidade de memes que recebo por dia sobre o Coronavírus passa de 100. Cem, por dia. Diferentes.

De alguns eu só rio. De outros, gargalho. De chorar.

Esse é o lado positivo do brasileiro: temos a alegria no cartão de visitas que o mundo todo conhece e enaltece.

Aqui, rola solta a habilidade de levar ao pé da letra o ditado do limão e da limonada.

Mas, você já pensou que esta mesma característica pode ter responsabilidade sobre o nosso conformismo que, por consequência, nos dá o panorama que temos hoje em cidades como o RJ e SP, só para citar algumas?

O ‘deixa pra lá e faz piada que é melhor rir do que chorar’ pode ser um baita tiro no nosso pé. Nosso, porque não estou fora desta panela.

Fazer rir é infinitamente melhor do que chorar, é óbvio. Mas é perigoso… É um hábito que pode nos levar à posturas inertes, de só reclamar e pouco fazer, ou à não ação e a não ação não resolve nada.

Os especialistas explicam que o medo paralisa muitas pessoas e o subterfúgio ao medo pode ser a negação. Negar uma coisa nos traz a sensação ilusória de ‘caso resolvido’. Não estou pensando nisso, logo, isso não existe. Descartes, nos perdoe a licença poética!

Dá muito menos trabalho encarar com piada uma situação horrível, dentro de um cenário horrível, do que arregaçar a manga, assumir a autorresponsabilidade e pensar com seriedade sobre soluções.

Você lembra do caso da ponte Rio-Niterói, em 2019, quando aquele rapaz sequestrou um ônibus e apareceu com um isqueiro e todo mundo achava que ele ia explodir o ônibus?

Uma das fotos que mais viralizaram era a de um grupo de jovens, sentados no chão da ponte, jogando baralho. Baralho.

Foi engraçado? Por 2 segundos. Depois eu fiquei aterrorizada como fatos tão sérios tornaram-se banais pra nós, a ponto do psicológico das pessoas buscar sempre fuga na piada para não enlouquecer no meio da realidade.

Banalizar o horror pode ser saída pra não enlouquecer, todos sabemos disso. Rir é melhor que chorar, todos sabemos disso. Mas a gente não pode sair maquiando tudo e retardando o trabalho de solucionar, deixando sempre a batata quente no colo do outro.

Ou pior: ‘se Deus quer’ ele que resolva. Por que, né… Tem poderes!

Tem a ala que taca a responsa toda na “sociedade”. Sociedade virou o núcleo do sujeito, responsável pela pressão que sofremos, já reparou? A deidade que determina quase tudo.

E, aí, penso: Mas quem, raios, é a tal sociedade?

Sou eu, é você e é todo mundo que está ao nosso redor. Ação individual? Responsabilidade individual? Para quê, não é mesmo?

Aliás, ação individual tá tendo sim: quem pode pagar, sai correndo e rapa tudo das prateleiras dos supermercados e das farmácias, mas vai pro Instagram repostar os memes (ô, memes, vcs são danadinhos, hein…) e dar lição de calma pros amiguchos. Coisa linda.

Nessas semanas em que a gente tem sido chamada na pressão para lembrar que mundo e nosso coletivo existem além do nosso umbigo, tenho pensando nisso tudo. Tive alguns insights aqui para compartilhar com você:

Quem é que já viu aí no prédio ou na rua se tem vizinhos idosos precisando de alguém para ir ao mercado ou à farmácia pra evitar que eles saiam de casa? Dá uma interfonada, pergunta. Dá pra ir, pegar as coisas, trazer e deixar na porta. Muitos têm família, mas sentem-se sozinhos no isolamento necessário. Só de interfonarmos já será uma alegria. Pode apostar.

Também rola dar uma força na cesta básica dos funcionários de casa ou da galera da portaria para incluir os itens mais caros que são necessários na prevenção do vírus.

Nessa mesma ideia, rola ajudar os asilos e famílias com pessoas que estejam em grupo de risco (idosos e imunossuprimidos), especialmente e que não estavam contando com todos esses gastos extras de prevenção ou tratamento.

Rola compartilhar a lista de hospitais que estão vacinando e dar o update das informações.

Mesmo com pouquinho, dá pra ajudar. Então, proponho que a gente continue sorrindo e brincando, só um pouquinho mais sério. Pensando um pouco mais no coletivo e menos no próprio umbigo.

Com ou sem coronavírus.

 

Crédito da imagem: Arte que contagia

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