Nas últimas semanas, reflexões sobre a objetificação sexual encheram a minha timeline, para minha alegria e para alegria de todos que vibram por mais equilíbrio e respeito entre as partes.

Teve a carta que a Jennifer Aniston mandou para o Huffington Post, na qual ela desabafa sobre estar farta do abuso direcionado a ela e farta da indústria da comunicação em geral, que dissemina a mesma tecla de sempre: a mulher só fica plenamente feliz quando tem homem e gera criança.

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Também chegou a mim trechos de uma palestra da Dra Caroline Heldman em um TED. Ambos conteúdos somam-se a tantos outros e tratam de um tema bem familiar: a objetificação sexual.

Nossa proposta aqui no blog é de trazer alegria, comunicação com verdade para nossa vida real e achei muito importante abordar com vocês numa troca de ideias, o tema da objetificação sexual. Assim, podemos pensar juntos e em vários níveis já que, talvez, todos tenhamos papel nisso.

Objetificação sexual é o processo de representar ou transformar uma pessoa em objeto sexual que serve somente para dar prazer ao outro.

Vamos abrir um pouco mais o tema:

Dados da palestra da Dra Caroline indicam que, atualmente, 96% das imagens que vemos são de corpos femininos sexualmente objetificados. Ela também diz que perdemos a habilidade para identificar isso. “Uma nova cultura de objetificação emergiu nos últimos 10 anos e é marcada por duas coisas: o crescente número de propagandas com objetificação sexual na televisão, cinema, videogames, clipes musicais, revistas e outras mídias. E o segundo componente da publicidade é que as imagens se tornam cada vez mais extremas, mais super sexualizadas”, diz. “Nos anos 70, você via em média 500 propagandas por dia. Agora, vemos 5 mil”.

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Li tanto, mas tanto sobre essas questões… Busquei opiniões de amigos, de conhecidos, de desconhecidos… (e aqui preciso abrir parênteses para agradecer ao Alê Makhlouf, super amigo com quem dividi o draft deste post).

Li comentários com discursos inflamados, outros revoltados e li também os amistosos. Procurei oxigenar a minha cabeça o máximo possível, porque acho que ler opiniões contrárias à minha também me enriquece demais.

Questões relacionadas à posição, aos direitos dos seres sejam eles pertencentes a que gênero for, são complexas de abordar e, mais ainda, de serem vividas exemplarmente.

Nós, mulheres queremos igualdade salarial (porque a maioria ainda não tem, fato) mas, vira e mexe, adoramos um ‘cavalheirismo’, concordam?

O homem, por sua vez, quer uma mulher mais segura, mas fica intimidado quando a sua parceira tem mais segurança do que ele. Resultado: foge dela (via de regra, a frase é a mesma “Não é você, o problema sou eu”). Se você está caindo fora porque se sente ‘menos’ que ela, o problema é seu mesmo, Amigo. Literalmente.

É um monte de pensamentos misturados. É um monte de ações confusas.

Tomo cuidado para não cair no mesmo erro de quem, na tentativa de defender um lado, faz pior com o outro. Sempre que a gente tenta defender um lado, acaba, invariavelmente, sendo excludente com pontos do outro que merecem tanta atenção quanto os que a gente defende.

Pois é…

Revi o vídeo da Objetificação sexual. Reli a carta da eterna Rachel e comecei a minha reflexão a partir de uma palavra: intenção. A intenção de quem propõe, a intenção de quem aceita fazer um trabalho sabendo que ele tem a finalidade de objetificar. A intenção de quem consome o tal produto.

Falo da intenção verdadeira, não a politicamente correta ou a branda. A verdadeira, sem inflamação de todos nós (me incluo) para que reflitamos nas menores ações do nosso dia, nas mais simples. Vamos lá:

A palestra criticou os publicitários e ela colocou tudo a partir do que está lançado, publicado, divulgado. A carta da Jennifer criticou a mídia, em geral.

Senti aperto no coração e uma dúvida congelou na minha cabeça: para que esses materiais estejam prontos e repercutam, invariavelmente, há uma ordem:

  1. Houve a ideia (ou o pedido do cliente que, via de regra, deseja vender mais produto/serviço)
  2. Houve uma proposta
  3. Houve um casting/ uma redação
  4. Houve o aceite de quem topou fazer
  5. Houve a compra da revista/ do jornal e houve o clique no site, por NÓS

Qual é nosso papel, como consumidor de tudo isso, no meio de tudo isso?

Consideremos que uma coisa é o briefing de uma campanha (ou o roteiro) pedir uma modelo ‘gostosa’ ou ‘atraente’. Outra BEM diferente, é a(o) modelo/atriz/ator-dublê das duas coisas, aceitar o cast e topar o job ciente do que este job será e o terceiro ponto: a gente que consome, lê e ainda comenta. Quem está fora desse circuito? Ninguém.

A mulher/o cara que topa ser modelo de uma campanha que claramente expõe a pessoa como objeto contribui para a objetificação sexual?

A gente que não resiste e clica no link do portal, mesmo sabendo e reconhecendo que o título é ‘pega-bobo de fofoca de celebridade’, contribui para a objetificação sexual?

Então, tá todo mundo errado e não só uma parte?

Erra quem acha que pode sugerir a pessoa, erra a pessoa que aceita (sim, existem mil motivos mas isso não justifica o resultado final que é um só) e, assim, incentiva a propagação dessa objetificação? Erra a gente que consome esse produto?

A Dra Caroline fala em dicotomia: sujeitos agem, sujeitos sofrem a ação.

Jennifer fala em abuso direcionado a ela.

Decidi fazer outra comparação: fui pro shopping e para as ruas observar outdoor e banners internos das lojas.

Homens aparecem da cintura pra cima, normalmente, com aquele olhar franzido ou sério de “tem sol batendo no meu olho”. Quase sempre (exceção para lojas de beachwear), só o pescoço à vista. Minto: a campanha da Calvin Klein com o Bieber também expõe o peitoral da criatura que, para mim, vai cantar pra sempre Babe, babe, babeeeee… Mas, na maioria, homens estão em banners de perfume. Quando estão na vitrine de loja de roupa, aparecem de terno ou gola polo.

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Mulheres estão de corpo inteiro na maioria das fotos. As que apenas têm o rosto em destaque, fazem olhar de feme fatale (não é tendenciamento meu, é só você olhar a expressão).

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Observei as propagandas televisivas: lembrei da propaganda de uma joalheria que tem uma modelo rolando na parede, passando a mão no rosto, na boca e com cabelos esvoaçantes. Até hoje não entendi qual o sentido de rolar pela parede, mas ok. Esta modelo era a nossa Gisele, linda e profissional, como sempre. A campanha da Vivara ficou maravilhosa, sim. Mas, precisava ser assim?

Fui às bancas de jornal. Verifiquei as capas das revistas. Já fez isso? Recomendo o exercício…

Observei videoclipes nacionais e gringos no Top TVZ: precisa falar ou essa a gente pula? Quando o vocalista é homem, normalmente, canta sobre a temática delas, mulheres. Elas, vocalistas ou personagens/dançarinas estão: ou com roupa bem curta ou dançando sem osso e rebolando. Incondicionalmente. Alguém apontou uma arma para a cabeça dos caras e das meninas para se colocarem nestes respectivos papéis? Aceitaram, ambos, por quê?

Então, antes de sair com pensamento machista ou feminista, comecei a olhar pra dentro porque isso tudo é tão enraizado em quase todas as culturas que temos muito trabalho para resolver no nosso dia a dia antes mesmo de apontar o dedo pro olhinho do amigo ao lado.

Quem cria os tais briefings e roteiros que esteriotipam ‘mulher gostosa’, homem com cara de ‘sol batendo na minha cara’ pertence a qual gênero, especificamente? E cria para quem?

É claro que é mais lindo a gente tentar encurtar o assunto e lançar um ‘o corpo é dela/dele, faz o que quiser’, mas isso vira discurso raso demais quando as questões que se desenrolam a partir do tal corpo fazendo dele o que quiser começam a se multiplicar e a gerar problemas bem mais sérios do que ‘ter o corpo’ ou ‘ser dono do tal corpo’ porque o efeito é dominó e, nem sempre, aparece com uma causa tão explícita assim.

Volto à mesma questão que falei antes: qual é a intenção? Qual é a intenção de vestir a modelo da propaganda da cerveja com um top cropped grudado no corpo? Qual é a intenção de colocar um cara com semblante de “Te desprezo. Ops, digo: o sol tá batendo na minha cara e por isso estou com esse olho de passarinho, meio Santoro, meio Beckham’?

Qual é a intenção de um vídeoclipe com mais bunda do que gogó? Qual é a intenção de cobrar de uma artista filho ou corpo igual ao que ela tinha 20 anos?

Qual é a intenção REAL?

VENDER. VENDER PARA ALGUÉM.

Até aí, OK. Mas, VENDER COMO E A QUE PREÇO?

Quando a gente começar a responder, com VERDADE, qual é a intenção de qualquer coisa que a gente vista, faça, diga ou divulgue, a gente vai entrar em uma nova esfera de análise interna que é muito maior.

Liberdade de andar do jeito que a gente quer é digno, sim. Isso é inquestionável. Mas acho que a problemática da objetificação não está em personagens que viram vítimas em palestras.

Acho que nós, INDIVÍDUOS, temos que PENSAR com mais atenção, diariamente, se estamos contribuindo para um grupo social mais justo ou se estamos rodando em volta de pensamentos hipócritas, que enchem nossa timelime de likes e nos trazem a ilusória sensação de estarmos corretos e bem na fita quando, na verdade, incitamos consciente ou inconscientemente, para a perpetuação de pensamentos, hábitos e cultura desiguais.

O gato vendido por lebre:

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Meu pensamento sobre tudo isso: Seria um ótimo exercício parar de considerar a mídia como única vilã, parar com a vitimização como se fôssemos incapazes de discernir e trazer a responsabilidade um pouco mais pro nosso lado (de consumidor também).

A mídia não tem esse poder todo. Faço parte dela e repito: o poder é de todos enquanto consumidores; de quem COMPRA o que a mídia VENDE.

E, de verdade, se a educação (como informação) não está andando na mão certa da vida, vamos fazer na contramão?

Experimente parar de clicar nos títulos rasos dos portais, experimente não dar ibope pro título sensacionalista que tem a única intenção de ser anzol para fisgar o clique e depois mostrar pro anunciante a quantidade de leitores que visitaram aquela tela no mês.

Experimente não comprar uma lingerie cuja modelo parece anoréxica no banner.

Experimente fazer isso.

Rapidinho, o editor que antes empurrava qualquer coisa a qualquer custo vai começar a repensar o que escreve e como publica e, quem sabe, esses problemas todos começam a ter cura. Começam…

“We are #WomenNotObjects” é o filme que Madonna Badger, fundadora e CCO da Badger & Winters Group, lançou recentemente. São 2 minutos e meio (link no final do post).

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A concessionária MotoCorsa de Portland, Oregan nos EUA, foi na contramão de toda a publicidade em torno da indústria mecânica: resolveu fotografar funcionários mecânicos, vestidos com roupas femininas e saltos, naquele carão, em cima de uma Ducati Panigale 1199. O ensaio chamado “Manigale” critica a objetificação:

moto_interna

Deixo aqui para vocês esta reflexão que eu mesma tenho feito todos os dias. Deixo também dois links: a palestra da Dra Heldman (aqui) e um case maravilhoso que recebi do meu querido amigo Alê Makhlouf (aqui) que mostra o que uma agência fez quando o cliente (não revelado) pediu que a agência retirasse os cadeirantes de uma campanha. Link do filme (aqui)

Vídeo: S.O.S. Mary Kay - Batom Mate! Tudo sobre as 7 cores
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